quarta-feira, 8 de março de 2017

III Artigo - De Barra do Açu a Barra do Furado

Por Arthur Soffiati

Quando a Petrobras anunciou a intenção de construir um heliporto no Farol de São Thomé, rapidamente defensores e críticos dele se movimentaram. 

Os ecologistas contavam com boa organização e logo reivindicaram Estudos de Impacto Ambiental para o empreendimento. 

Como de hábito, população (sobretudo a do Farol), empresários e políticos apoiaram a implantação da obra sem maiores cuidados. O surrado argumento do progresso e do desenvolvimento prevaleceu. A Petrobras prometeu mundos e fundos para os habitantes do Farol. Os anos se passaram e a vida econômica, social e cultural do lugar não mudou muito com o empreendimento.

Mais recentemente, a Petrobras projetou um aeroporto moderno, também no Farol, em substituição ao heliporto. A planta baixa do empreendimento não mostrava o que havia sob o terreno do conjunto. Havia lagoas. E a grande alegação para a instalação e operação era a de que o maior impacto no Farol já tinha ocorrido no início da colonização: um grande desmatamento que extinguiu as florestas da baixada. 

O grande eco-historiador dos Estados Unidos Warren Dean também aventou a hipótese de que os campos herbáceos da baixada seriam o resultado de contínuas queimadas em áreas de floresta efetuadas pelos povos nativos da região, antes mesmo da invasão e ocupação europeias. Algumas afirmações do eco-historiador revelam desconhecimento da região. Primeiramente, a planície aluvial não se estende ao norte do rio Paraíba do Sul, onde começa a unidade setentrional de tabuleiros da região. Em segundo lugar, ele se vale das observações de José Carneiro da Silva para sustentar que a floresta potencial dos campos herbáceos estava retornando nas partes onde as terras haviam sido abandonadas. Silva apenas registrou a proliferação de plantas invasoras em Campo Limpo.

Não haveria impacto ambiental maior que o aeroporto se ele fosse concluído porque nunca existiram grandes florestas na baixada dos Goytacazes. Como a umidade concentrada em lagoas, canais e cheias era muito grande, o ambiente inibia o desenvolvimento de plantas arbóreas. 

Dependendo da classificação de biomas brasileiros, a vegetação nativa do Farol de São Thomé se insere inteiramente no Bioma Atlântico, segundo o Ministério do Meio Ambiente. O Fundo Mundial para a Natureza (World Wilde Found for Nature – WWF) reconhece o Bioma Costeiro, associado ao Atlântico. Para a instituição internacional, o manguezal não pode ser entendido como ecossistema derivado da Mata Atlântica porque está presente na Amazônia e em toda a região intertropical. Mas, na orla marítima da Mata Atlântica, os manguezais dependem dela. Em suma, os ecossistemas formadores do Bioma Costeiro são e não são associados a um bioma genuinamente brasileiro, como a Mata Atlântica. 

Mais recentemente, o biólogo Fábio Scarano propôs que a Plataforma Continental seja considerada um bioma. Na minha ignorância de eco-historiador, propus também o Bioma Insular Oceânico. Por que não? Por que apenas as formas de vegetação formariam biomas, conjuntos de ecossistemas aparentados que formam uma unidade integrada? Assim, o território do Farol se enquadraria no Bioma Costeiro com o Bioma da Plataforma Continental na frente. Aproveitando a Campanha da Fraternidade de 2017, promovida pela Igreja Católica no Brasil, com o lema “Biomas brasileiros e defesa da vida”, deixo aqui a minha contribuição, pelo menos no que toca ao Farol.


Biomas brasileiros segundo a WWF

Quanto aos ecossistemas vegetais nativos, em 1500, havia três ou quatro na área hoje corresponde ao litoral de Campos dos Goytacazes, segundo a classificação de Henrique Pimenta Veloso e colegas:

1- Formação pioneira da influência marinha. No estreito cordão arenoso em que se ergueu o Farol de São Thomé e Xexé, a vegetação é típica de substrato arenoso nas cercanias do mar. Normalmente, denominamos este tipo de terreno como restinga. A vegetação que aí se desenvolve é nomeada por Veloso de Formação pioneira de influência marinha. Trata-se de uma vegetação adaptada ao solo arenoso e à influência do mar, como salinidade do solo e do ar e também ventos. Tanto assim que essa vegetação, junto à praia, tem configuração rasteira, com plantas herbáceas. A segunda zona é constituída por plantas arbustivas e a zona mais interior, onde o ímpeto dos ventos diminui, é formada por plantas arbóreas. Entre Farol e Xexé existe ainda um remanescente desse tipo de vegetação que deveria ser preservado pelo poder público, pois está fadado a desaparecer com a expansão urbana.
Bosque de mangue branco, mangue de botão e guaxuma na lagoa do Açu.
Foto do autor
2- Formação pioneira de influência fluviomarinha. Atrás do alto cordão arenoso que separa a praia da planície, corria antigamente o famoso rio Iguaçu, do qual restou de forma visível a lagoa do Açu. Esse rio nascia com a confluência de vários canais que nasciam na lagoa Feia, engrossava com a contribuição de canais que vertiam do rio Paraíba do Sul, cruzava a lagoa do Lagamar, onde recebia outro canal denominado rio Bragança, alargava-se no banhado da Boa Vista, engrossava com o antigo rio Água Preta e desembocava no mar onde hoje fica a barra do Açu. Como seu leito era muito baixo, supõe-se que as marés altas alcançassem terras hoje pertencentes ao município de Quissamã. No livro “O coronel e o lobisomem”, José Cândido de Carvalho refere-se a um tipo de vegetação muito provavelmente de estuário, ou seja, do ecossistema formado pelo encontro de água doce com água salgada, resultando em água salobra. A vegetação que se desenvolve em estuários da zona tropical é o manguezal.

Resíduos do longo manguezal do rio Iguaçu devem ser o manguezal da lagoa do Açu e o manguezal da ilha da Carapeba, na margem esquerda do canal da Flecha. Restaram os extremos do manguezal. O meio foi destruído com a densa ocupação urbana do Farol. 

Examinando o manguezal da ilha da Carapeba, notamos que ele parece velho, bem mais velho que outro formado recentemente na margem direita do canal da Flecha. No entanto, caminhando em direção à fazenda São Miguel, logo depois do canal, ainda existe um segmento do antigo rio Iguaçu, conhecido hoje como canal do Espinho. O antigo manguezal do rio ainda deixou vestígios nesse estirão hídrico. O manguezal é classificado por Veloso como vegetação pioneira de influência fluviomarinha por depender ele de água doce misturada com água salgada. Atualmente, em Barra do Açu existe o manguezal mais rico da ecorregião de São Thomé. Ele conta com quatro espécies exclusivas de manguezal: mangue branco, mangue vermelho e siribeira. Existe uma quarta espécie não exclusiva de manguezal, o mangue de botão, cuja maior população do Estado do Rio de Janeiro se encontra na lagoa do Açu. Apesar dessa biodiversidade e da proteção do Parque Estadual da Lagoa do Açu, o manguezal do Açu se encontra estressado e ameaçado.

Na outra extremidade, o manguezal da ilha da Carapeba em Barra do Furado, foi empobrecido e está mais ameaçado ainda. A única espécie que sobreviveu foi o mangue branco. O Plano Diretor de Campos prevê a criação de uma unidade de conservação para ele, unidade que, quase dez anos depois, não saiu do papel.
Paisagem semelhante a dos campos nativos da Baixada dos Goytacazes. Foto do autor
Manguezal da ilha da Carapeba: destruição e lixo. Foto do autor
 3- Formação pioneira de influência fluvial. Além de não ter merecido maior atenção dos botânicos e fitogeógrafos, em face de sua brutal destruição, os campos herbáceos da planície norte fluminense, enquanto formação vegetal nativa potencial, não têm contado com a oportunidade de se recuperar naturalmente, uma vez que atividades econômicas permanentes e/ou intensivas inibiram o ressurgimento das espécies que os revestiam quando da chegada dos primeiros colonos de origem europeia.

O botânico campista Alberto José de Sampaio divide os campos nativos em arborizados (savanas) e sem árvores (campos limpos). Por uma única citação, conclui-se que ele incluía os campos da planície aluvial norte fluminense na segunda categoria, posto que profundamente alterados pela ação humana. Os campos herbáceos da planície aluvial norte fluminense foram decantados por quantos os conheceram desde o século XVII. 

Predominando entre as bacias do Rio Paraíba do Sul e da Lagoa Feia com extensões até a bacia do Rio Macaé, tratava-se de extensas pradarias inundáveis em planícies formadas por sedimentos fluviolacustres. No documento atribuído a Miguel Aires Maldonado e a José de Castilho Pinto, que passou a se chamar “Roteiro dos Sete Capitães”, há o relato acerca da terceira tentativa de colonização europeia do norte fluminense, esta por sete fidalgos que a requereram como sesmarias e bem sucedida porque contínua. Para o autor do manuscrito, na verdade um escrivão que acompanhava os sete fidalgos, essas dilatadas campinas começam logo depois da faixa arenosa costeira do Farol, estendendo-se para o interior. A primeira descrição delas diz que “... o interior era melhor por não ter areias como cá para fora para o sul, e (...) as campinas iam pelo interior dentro, não muito longe do Rio Grande [Paraíba do Sul], e (...) eram as mais férteis de erva, que em parte embaraçava as pernas dos andantes (...) As campinas eram ricas, muito aprazíveis e muito férteis de erva, mais saudosas que as de fora da parte do sul; o seu local era muito próprio para a cultivação.”

Se bem que os goitacás usassem o fogo e praticassem uma agricultura complementar à pesca e à caça, é difícil presumir que a relação população-território-recursos naturais, francamente favorável ao primeiro elemento, exigisse a utilização intensiva do solo e a caça praticada à base de queimadas, sobretudo num ecossistema de extrema umidade. Tudo leva a crer que os campos herbáceos do norte fluminense constituíam uma formação vegetal nativa porque a lavagem anual das cheias do Paraíba do Sul não permitia o desenvolvimento de vegetação de porte arbóreo, a não ser, como já se observou, nas partes mais elevadas da planície. 

Poder-se-ia resumir o processo de desfiguração dos campos graminosos nativos nos seguintes termos: inicialmente, os conquistadores de origem europeia introduziram espécies animais exóticas para pastarem nas pradarias alagáveis e secas, pródigas em plantas herbáceas nativas, ao mesmo tempo em que introduziam espécies nativas e exóticas de porte arbustivo ou arbóreo para demarcação de propriedades e posses com cercas vivas; comendo de seus frutos, o gado disseminou tais espécies através de seus excrementos; o pastoreio excessivo pouco a pouco esgotou as ervas nativas, levando os criadores a introduzirem gramíneas exóticas; distinguiram-se, assim, os campos antigos, empobrecidos pelo sobre pastoreio e pelo descuido dos campos novos, forrados com espécies exóticas importadas principalmente da África; paralelamente, o pastoreio foi sendo substituído em vários campos, a princípio por uma lavoura diversificada (cana, algodão, milho, feijão, arroz, mandioca, café, trigo, cacau, baunilha e outros), em que a cana se mostra de tal forma promissora que acaba por se tornar predominante no século XIX, juntamente com engenhos antigos e, ulteriormente, com usinas. Com esta invasão avassaladora, pode-se considerar hoje os campos herbáceos nativos como um ecossistema extinto. Em estudo acadêmico, examino detalhadamente a história de substituição dos campos nativos por lavoura e pasto.
Ecossistema vegetacional de restinga na região norte fluminense.
Foto de Dina Lerner.
Obras consultadas

CARVALHO, José Cândido de Carvalho. “O coronel e o lobisomem”, 9ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1972.

DEAN, Warren. “A ferro e fogo - história e a devastação da Mata Atlântica brasileira”. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

GABRIEL, Adelmo Henrique Daumas e LUZ, Margareth da (Orgs.); FREITAS, Carlos Roberto B.; SANTOS, Fabiano Vilaça dos; KNAUS, Paulo; SOFFIATI, Arthur (notas explicativas) e GOMES, Marcelo Abreu. Roteiro dos Sete Capitães. Macaé: Funemac Livros, 2012.

SAMPAIO, Alberto José de. “Fitogeografia de Brasil”, 3ª ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1945.

SCARANO, Fábio Rubio. “Biomas Brasileiros: Retratos de um país plural” Rio de Janeiro: Casa da Palavra.

SILVA, José Carneiro da. “Memória topográfica e histórica sobre os Campos dos Goitacases”, 2ª ed. Rio de Janeiro: Leuzinger, 1907 (1ª ed., 1819).

SOFFIATI, Arthur. A história ambiental de um campo nativo de planície. “Anais do III Encontro da ANPPAS”. Brasília: Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ambiente e Sociedade, 2006.

VELOSO, Henrique Pimenta; RANGEL FILHO, Antonio Lourenço Rosa e LIMA, Jorge Carlos Alves. “Classificação da vegetação brasileira, adaptada a um sistema universal”. Rio de Janeiro: Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 1991.



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