quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

De Barra do Açu a Barra do Furado

Arquivo
A costa de Campos dos Goytacazes 
Por Arthur Soffiati

Estreita faixa de areia entre Barra do Açu e Barra do Furado a ligar duas restingas. Em poucas palavras, poderíamos definir assim a zona costeira de Campos. Mas há mais, bem mais a escrever.


Elevemos a faixa de areia, de modo que ela seja mais alta que o mar e que a planície do interior. Retiremos Barra do Furado, que, em termos naturais, não existia antes de 1688. Façamos um rio correr atrás da praia, na planície aluvial, e desembocar no mar pela Barra do Açu. Esse rio não existe mais.

Na verdade, essa linha de costa retilínea, elevada, varrida por fortes correntes e com ondas violentas era bem distinta há cerca de 20 mil anos, data redonda para facilitar a compreensão. Nesse tempo tão recuado para nós, informam os geólogos Martin, Suguio, Dominguez e Flexor, que não existiam a planície aluvial, na retaguarda do cordão de areia do Farol, e a restinga que começa no Cabo de São Thomé e termina na altura da praia de Guaxindiba.

Havia um tipo de terreno chamado Formação Barreiras, popularmente conhecido como tabuleiros, como na costa de São Francisco de Itabapoana entre Manguinhos e o rio Itabapoana. Esse tipo de terreno avança até o rio Itapemirim, no Espírito Santo. Batido pelo mar, os tabuleiros deviam formar costões com blocos ferruginosos, como na praia da Lagoa Doce. Eles são chamados de falésias. O rio Paraíba do Sul devia então desembocar perto do que hoje se conhece como cabo de São Thomé. Alberto Ribeiro Lamego sustenta tese bem parecida, mas com começo distinto. Os quatro geólogos apresentaram tese construída sobre métodos de datação química. Ela está exposta em “Geologia do Quaternário costeiro do litoral norte do Rio de Janeiro e do Espírito Santo”, de Louis Martin, Kenitiro Suguio, José M.L.  Dominguez e Jean-Marie Flexor (Belo Horizonte: CPRM, 1997).

Nesse remoto passado em termos humanos, já existia a lagoa de Cima. O rio Paraíba do Sul devia desembocar nas imediações do atual cabo de São Thomé. Talvez houvesse um curso d’água entre a lagoa de Cima e o Paraíba do Sul. Talvez, também, o rio Macabu afluísse para o mesmo rio. Contudo, ainda não existiam o rio Ururaí e as lagoas Feia e do Campelo. Na parte sul, a linha da costa avançava mais para o mar e recuava na parte leste, pois não existia ainda a grande restinga que hoje lá se encontra. A restinga ao sul, onde hoje está instalado o Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba, data de 123 mil anos passados. O mapa abaixo esboça algo dessa geografia ainda a ser melhor estudada.
Fig. 1 – Mapa da futura região da Baixada dos Goytacazes anterior ai Holoceno.
Construção do autor com base em Martin, Suguio, Dominguez e Flexor 
Esse mundo começou a mudar por volta de 12 mil anos passados. As temperaturas do planeta aumentaram e derreteram geleiras. O nível dos oceanos se elevou e aconteceu o que os estudiosos chamam de transgressão marinha, ou seja, o mar avançou sobre os continentes em vários pontos do mundo. Na nossa região, ele avançou muito e alcançou seu ponto máximo em torno de 5.100 anos antes do presente, chegando à lagoa de Cima e ao pé da zona serrana. As partes mais altas da linha costeira se transformaram em ilhas. As partes mais baixas foram cobertas pelo mar, dando origem a uma semi laguna. Não é para causar estranheza o avanço do mar em Atafona porque fenômeno semelhante, porém mais intenso, ocorreu num passado não muito distante em termos de história geológica.

O mapa abaixo mostra a fisionomia da região no máximo transgressivo holocênico, isto é, no máximo avanço do mar na época chamada de Holoceno. A linha pontilhada assinala a costa atual. As compridas ilhas mostram a antiga costa. Ao norte, o rio Paraíba do Sul começa a avançar sobre a laguna em direção a sua foz atual. 
Fig. 2 – Avanço do mar sobre a parte baixa dos tabuleiros
segundo Martin, Suguio, Dominguez e Flexor
Daí em diante, o trabalho em conjunto do rio Paraíba do Sul e do mar vai construir a planície aluvial e a grande restinga entre o cabo de São Thomé e Manguinhos. Em 1500, data da chegada dos portugueses ao Brasil, a fisionomia da região apresentava as características a serem mudadas com a colonização. No mapa abaixo, retratando uma geografia de 2.500 anos antes do presente, já aparecem a linha de costa atual, que sofrerá ligeiras oscilações doravante, a grande restinga, a foz do Paraíba do Sul no ponto em que a conhecemos, a lagoa Feia em formação, os canais naturais de Itereré, de Cacumanga e do Cula, que ligarão os rios Paraíba do Sul ao Iguaçu, ainda não assinalado no mapa abaixo. O sul da lagoa Feia ainda não foi construído. Ele será dominado pelo rio Iguaçu, que desembocará na barra do Açu, já assinalada.
Fig. 3 – Formação da planície fluvimarinho dos Goytacazes
segundo Martin, Suguio, Dominguez e Flexor. 
Quando chegou Pero de Gois, o primeiro europeu a tentar se instalar na região de forma contínua, administrando a Capitania de São Tomé, no século XVI, a configuração da futura Baixada dos Goytacazes contava com dois rios drenadores. Ao norte, o Paraíba do Sul, que recebe a contribuição do rio Muriaé pela margem esquerda e separa duas províncias geológicas e geomorfológicas: tabuleiros na margem esquerda e planície aluvial na margem direita. Ao sul, o sistema Iguaçu, bastante complexo. Ele começa na zona serrana com os rios Imbé e Urubu, ambos desembocando da lagoa de Cima. Esta, por sua vez, escoa suas águas pelo rio Ururaí, recebendo pela margem esquerda os rios Preto e Cacumanga. 

Ele desemboca na lagoa Feia, que recebe a contribuição dos rios Macabu e da Prata. Ao sul da lagoa, nascem vários canais naturais que se juntam no rio Iguaçu. No trajeto dele em direção à costa, existia uma saída para o mar na lagoa Lagamar, conhecida pelos antigos e pelos estudiosos com o nome de Barra Velha. Depois de alagar o banhado da Boa Vista, o Iguaçu se lançava ao mar onde hoje existe a lagoa do Açu. Todo o curso do Iguaçu, atrás da praia do Farol, era muito baixo, permitindo que as marés cheias alcançassem o atual canal da Flecha, que então não existia. As margens do rio deviam ser cobertas por um extenso manguezal, ecossistema que se desenvolve na região intertropical, na presença de água salobra, ou seja, formada pelo encontro de água doce com água salgada. Até hoje, existem remanescentes de manguezal em Barra do Furado e na barra do Açu. 
Fig. 4 – Baixada dos Goytacazes em 1500.
 Imagem Landsat; concepção do autor.

Continuamos em outro artigo.

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