Por Arthur Soffiati
Originalmente, xávega é um tipo de pesca artesanal praticado em Portugal nas praias de Espinho, Torreira, Vagueira, Mira, Tocha, Vieira, Pedrogão, Saúde, Telha e Costa da Caparica. Consiste em lançar uma rede (xalavar) no mar a partir da praia e recolhê-la por tração animal e força braçal humana. Com o tempo, os animais e os pescadores foram substituídos por tratores.
O xalavar é uma rede cônica com flutuadores. Tem a forma de um saco. É colocada no mar longe da costa por uma embarcação. Por uma corda presa nela, é trazida para a costa.
Efetua-se o cerco aos cardumes no mar e retorna-se à praia onde animais e pescadores puxavam a rede. Hoje é puxada por tratores. Não são os meios de arrastar a rede para a costa que definem a xávega, mas o estilo de pesca a partir da praia.
No norte fluminense, os barcos de pesca marinha costumam usar ancoradouros na foz dos rios Itabapoana, Guaxindiba, Paraíba do Sul, Canal das Flechas (um rio criado pela engenharia) e Macaé. A longa praia do Farol de São Thomé, com seus 28 quilômetros, não tem nenhum ponto de ancoragem. Talvez a lagoa do Lagamar, no passado foz do rio Bragança, fosse propício à ancoragem. Hoje, ela está permanentemente fechada. Assim, os pescadores do Farol de São Thomé praticam uma xávega diferente: em vez da rede, o barco de pesca é arrastado para a praia por tratores. A volta ao mar se processa do mesmo modo: tratores arrastam o barco para o mar.
Por mais de uma vez, a prefeitura de Campos dos Goitacases anunciou a instalação de um porto no interior do Canal das Flechas, para onde o embarque e desembarque de pescadores de mar contassem com mais segurança. Eles vêm rejeitando a proposta. De fato, o Canal das Flechas apresenta problemas de navegação na sua barra. Quando há ressacas fortes, o mar a bloqueia com bancos de areia. Assim, os pescadores continuam com uma xávega adaptada às condições da praia.
Se ainda não contamos com uma história da praia do Farol de São Thomé, seguir os passos dos pescadores talvez seja um caminho promissor. Alguns historiadores regionais têm por certo que a colonização do norte-fluminense começou em 1622 com pescadores vindos de Cabo Frio que se instalaram em Atafona, foz do Paraíba do Sul. Talvez desse ponto, a pesca marinha tenha instalado outros pontos de pesca nos rios Itabapoana e Guaxindiba. Ao ganhar o interior da planície, pessoas pobres, sem direito gratuito a grandes glebas de terra (sesmarias), encontraram nos rios e lagoas fonte de subsistência com a fartura de peixes. Não havendo ainda o Canal das Flechas (cuja conclusão data de 1949), talvez pescadores de Atafona ou de água doce tenham se instalado na praia do Farol de São Thomé e adotado a arte portuguesa da xávega como originalmente era praticada em Portugal: um barco levava a rede para o mar e trazia a corda que permitiria puxá-la de volta por tração animal e humana.
Uma das pistas que eu seguiria para construir uma história da praia seria esta: seguir os pescadores. Eles deviam estar lá durante todo o tempo de silêncio sobre a praia.


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