Por Arthur Soffiati
Se o Paraíba do Sul é o rio de Campos, o rio do Farol de São Thomé é o Iguaçu. O Paraíba do Sul vem sendo secularmente vilipendiado pelas atividades econômicas e urbanas que se instalaram ao longo dos seus cerca de mil quilômetros. Bem menor, o rio Iguaçu também. Tanto que nem mesmo seu nome é conhecido pela maioria dos moradores do Farol de São Thomé e de Barra do Furado.
Depois de geologicamente formada a Baixada dos Goytacazes com sua parte aluvial e sua parte de restinga, muita água ficou aprisionada no seu interior. Essa água se acumulou numa infinidade de lagoas pela primeira vez registradas em mapa pelo Capitão de Infantaria Manoel Martins do Couto Reis em 1785. O escoamento para o mar era lento e se operava pelos rios Paraíba do Sul e Iguaçu. Em menor escala, pelo rio Guaxindiba. A direção desse escoamento tinha o sentido oeste-leste.
Mesmo com a grande vazão do Paraíba do Sul, muita água ainda ficava retida no continente. Durante a estiagem, as lagoas perdiam água por evaporação e chegavam mesmo a secar totalmente. Durante as chuvas, elas enchiam de novo. O rio Paraíba do Sul alagava essas lagoas.
No caso da Lagoa Feia, o Paraíba do Sul a alimentava por cima, pelo canal de Cacumanga, que saía do grande rio e alimentava o rio Ururaí, que, por sua vez, desemboca na Lagoa Feia. Mas também pelo lençol freático operava-se essa alimentação. A maior lagoa de água doce da Capitania-Província-Estado do Rio de Janeiro escoava por canais, em sua parte sul.
Os canais Velho, Novo do Colégio, Barro Vermelho e da Onça, além de outros menos conhecidos, formavam o rio Iguaçu. No seu curso, ele corria espremido entre a parte aluvial da planície e a faixa arenosa de 28 quilômetros do Farol de São Thomé. Nem sempre um raciocínio lógico explica os fenômenos da natureza. Passando tão perto do mar em todo seu trajeto, é de se perguntar por que o rio Iguaçu não formou uma foz para o oceano perto da atual Barra do Furado ou do Lagamar, que ele atravessa. Aliás, nesse segundo ponto, ele recebia o rio Bragança, que também nascia na Lagoa Feia.
A resposta é que o cordão arenoso em forma de larga e alta duna resistia à força do rio, obrigando-o a buscar saída depois da curva costeira que forma o Cabo de São Tomé. Aliás, parece que o único curso que rompia esse cordão quando havia grande volume de água doce acumulado era o Bragança, na hoje esquecida Barra Velha.
O rio Iguaçu perdeu força quando foi aberta a vala do Furado, em 1688, e com as obras de drenagem executadas entre 1940 e 1990 pelo Departamento Nacional de Obras e Saneamento. Sua foz fechou-se naturalmente. A água proveniente do canal do Quitingute (antigo rio Doce ou Água Preta) engrossa o Banhado da Boa Vista. Cortado pelo canal das Flechas, que foi aberto pelo DNOS entre 1942 e 1949, o Iguaçu passou a ser conhecido por rio do Espinho. Entre o Lagamar e a RJ-216, o Iguaçu foi todo seccionado por travessas com bueiros subdimensionados. É grande o lançamento de esgoto nesse trecho.
Há muito tempo, uma das minhas bandeiras é a restauração do rio Iguaçu onde possível.


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