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Os anos silenciosos


Por Arthur Soffiati

Estimulo, sinceramente, pesquisas sobre a história da praia de São Thomé. Ela é uma homenagem ao Cabo de São Thomé, acidente geográfico logo percebido como um ponto em que o litoral da América atlântica (não apenas do Brasil) muda claramente do rumo norte-sul para oeste-leste, logo seguido por uma costa reta e rasa (a praia do Farol). Esse cabo teve muita importância no tempo das navegações.

Além da descrição das três viagens feitas pelos Sete Capitães, no século XVII, encontramos marcos deixados pelos Jesuítas dentro da lagoa do Açu. Daí até o século XIX, existe um grande silêncio sobre a praia de 28 quilômetros. Por que? A hipótese mais provável é que a longa praia não entrou no caminho dos viajantes que se dirigiam ao norte ou ao sul. Além do mais, os viajantes brasileiros não costumavam escrever sobre suas viagens.

Rio Bragança em 1815. Desenho de Wied-Neuwied

Contamos apenas com o relato de viajantes europeus, geralmente cientistas, que vinham do Rio de Janeiro rumo ao Espírito Santo ou à Bahia. O diário de viagem do príncipe alemão Maximiliano de Wied-Neuwied mostra bem que o caminho seguido para chegar a Campos ou sair de Campos não passava pela praia de São Thomé. Barra do Furado era um ponto de passagem obrigatória de quem vinha pela zona costeira, e quase todos passavam por esse caminho. Depois de cruzar o rio Bragança com água na cintura, pois não havia ponte, seguiase para Santo Amaro e de lá tomava-se o caminho geral da baixada. Caminho de terra que não incluía a praia de São Thomé e seguia para Campos.

Maximiliano era um cientista muito rigoroso e preciso. Ele escreve ao sair de Barra do Furado em 1815: “Vencemos o último trecho das águas em canoas, perto da solitária igreja de Sto. Amaro, e agora a nossa tropa começou a avançar por imensas planícies verdejantes. Toda essa região plana forma as planícies dos Goitacás, que se estendem até o Paraíba, e donde a vila de S. Salvador tirou o nome adicional “dos Campos dos Goitacás.” Logo ele chega ao mosteiro de São Bento e não dá nenhuma noticia da praia de São Thomé por não ter passado nela.

O mesmo acontece com o botânico francês Auguste de Saint-Hilaire, em 1818. Ele sobe a estrada geral e hospeda-se na Fazenda do Colégio, que não mais pertencia aos Jesuítas. Em 1837, Henrique Luiz de Niemeyer Bellegarde relata que a estrada entre Santo Amaro e Quissamã precisava de reparos, pois era praticamente intransitável no tempo das chuvas, além de atender a muitas importantes e ricas fazendas: “na seção da estrada compreendida entre a sua confluência com a do Rosário e a Igreja de Sto. Amaro, se conservam lamas acumuladas durante quase todo o ano, e em tamanha cópia que podem submergir cavalo e cavaleiro, chegando a privar de todo o trânsito dos carros.”

Marco jesuíta no interior da lagoa do Açu

Em direção ao norte ou ao sul, o caminho tomado era a estrada geral de Santo Amaro a Campos e daí, descendo pelo rio Paraíba do Sul, chegar a São João da Barra, atravessar o rio e seguir caminho pela costa até a fazenda da Muribeca às margens do rio Itabapoana. 

Esse trecho todo foi percorrido por trabalhadores, proprietários rurais, comerciantes e cientistas. A praia de São Thomé ficou fora das rotas. Daí carecermos de informações sobre ela. Minha intuição de pesquisador aposta nos arquivos da Ordem de São Bento para escrever a história da praia entre o século XVII e XX.

Recomendação de leituras

BELLEGARDE, Henrique Luiz de Niemeyer. Relatório da 4ª Seção de Obras Públicas da Província do Rio de Janeiro apresentado à respectiva Diretoria em agosto de 1837. Rio de Janeiro:

Imprensa Americana de I.F. da Costa, 1837. MARTINS, Fernando José. A povoação e fundação da cidade de São João da Barra e dos Campos dos Goytacazes, da antiga capitania da Paraíba do Sul. São João da Barra: Secretaria de Educação e Cultura da Prefeitura Municipal de São João da Barra, 2004.

SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem pelo Distrito dos Diamantes e Litoral do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo, Edusp, 1974

WIED-NEUWIED, Maximiliano de. Viagem ao Brasil, 1ª edição brasileira. São Paulo:

Companhia Editora Nacional, 1940

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