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Córrego do Cula, a primeira estrada Campos-Farol


Por Arthur Soffiati

A margem direita do rio Paraíba do Sul, na planície, é mais baixa que o leito médio do rio. Assim, as águas de transbordamento por essa margem não voltam ao seu leito. Além do mais, há defluentes, ou seja, canais naturais que saem do rio e correm para a baixada. Seu destino final são as lagoas e o rio Iguaçu. Enquanto o rio Muriaé é considerado o último afluente do Paraíba do Sul, o Cula era considerado o maior defluente.

Ele tinha sua nascente no rio Paraíba do Sul na altura do cemitério do Caju, em Campos, e corria para a baixada. Consta que foi navegável durante bastante tempo. Podemos consideralo a primeira estrada a ligar Campos às proximidades da praia de São Thomé.

O Sargento-Mor Manoel Vieira Leão parece ter sido o primeiro a registrá-lo em mapa de 1767. Com bastante precisão, ele mostra o Córrego Grande ou do Cula passando em frente à Capela do Saco e descendo em direção a um ponto mais próximo à Barra do Furado do que à Praia de São Tomé. Ao que tudo indica, ele já estava cortado em vários pontos pelo caminho geral que ligava a Vila de São Salvador dos Campos dos Goitacazes a Santo Amaro. 

Com nitidez, o acidente geográfico é assinalado com o nome de Córrego Grande. Em 1785, o capitão cartógrafo Manoel Martins do Couto Reis legou-nos um detalhado mapa e um minucioso relatório com informações preciosas sobre topografia, rios, plantas, animais, economia e administração do Distrito de Campos dos Goitacazes.

Sobre o Canal do Cula, ele anota em seu relatório: “Do Rio Paraíba a Oeste da Ponta do recife principia o Córrego grande e, passando pelo Distrito da Freguesia de S. Gonçalo [atual Goitacases], atravessa três vezes pela estrada geral, e recebendo águas de diversas partes com que muito se aumenta, vai por detrás da Capela de S. Amaro; e dali para o rio do Coqueiro.

Os Jesuítas conceberam o projeto para aproveitar o canal do Cula com fim de promover a navegação entre a lagoa Feia e o rio Paraíba. A população de Campos não permitiu, pois, melhor que os padres, os campistas sabiam que esse canal inundaria a vila de São Salvador.

Não eram tão infundados os receios da população sobre o projeto dos jesuítas para o Córrego do Cula como hidrovia em todo seu curso para promover a navegação. Parece claro também pelo depoimento do capitão cartógrafo que o Cula ou não era navegável ou só era em certos trechos, visto ser cortado pela estrada geral, que já existia à época e que servirá de base, futuramente, para a ferrovia São Sebastião e para a atual rodovia RJ-216, que liga Campos ao Farol de São Thomé.

No século XIX, o Córrego do Cula sofreu um grande corte. O canal Campos-Macaé interrompeu drasticamente seu curso. Aos poucos, ele foi sendo aterrado e ocultado. Em 1865, um primoroso trabalho de cartografia organizado por Pedro D’Ancantara Bellegarde e Conrado Jacob Niemeyer ainda mostra o córrego, embora não o nomeie.

Vamos encontrá-lo novamente na planta da cidade de Campos, levantada por Francisco Saturnino Rodrigues de Brito em 1902, para acompanhar o livro “Saneamento de Campos”, editado no ano seguinte. Em 1929, o ilustre sanitarista volta a mencioná-lo em outro trabalho. Trata-se de “Defesa Contra as Inundações”.

Atendendo a uma determinação federal, Alberto Ribeiro Lamego traçou as plantas dos municípios de Campos e de São João da Barra. Mais uma vez, o Córrego do Cula aparece, mas em plano grande, o que não permite verificar seu curso no meio urbano de Campos.

Em “O Homem e o Brejo”, publicado em 1945, Alberto Ribeiro Lamego acrescenta uma sequência de quatro mapas para mostrar a formação geológica da planície fluviomarinha. No último deles, figura, em toda a sua extensão, o Córrego do Cula, mas também numa escala que não permite acompanhar o seu curso no meio urbano.

Mais maduro, o autor lançou, em 1955, um pequeno trabalho que atualizou seu conhecimento sobre as unidades geológicas do norte-noroeste fluminense. Nele, o autor descreve claramente o curso urbano do Córrego do Cula no interior da cidade de Campos. Em 1981, o geólogo Gilberto Dias fez um registro dele nos seguintes termos: “A partir das fotografias aéreas analisadas foram determinados vestígios de vários paleocanais na faixa que se estende desde a cidade de Campos até o cabo de São Tomé. O mais conspícuo desses paleocanais pôde ser traçado continuamente desde Campos até as proximidades de Muçurepe, onde se bifurca em duas direções. Um dos ramos atinge o litoral entre São Tomé e Barra do Furado; neste local a Lagoa Lagamar tem a sua morfologia condicionada pelo paleocanal. O outro ramo segue na direção do Cabo de São Tomé e se espalha próximo ao litoral atual na forma de numerosos canais radiais rasos, difusos e de padrão meandrante. Todo este sistema de paleocanais é truncado por uma faixa arenosa caracterizada por uma sucessão de cordões.

Atualmente não existe circulação de água por esses canais, desenvolvendo-se naquele local um extenso pantanal.

Leituras

BELLEGARDE. P. A. & NIEMEYER, C. J. Nova Carta Corográfica da Província do Rio de Janeiro, publicada às expensas de Eduardo Bensburg. Rio de Janeiro: Litografia Imperial, 1865. BRITO, Francisco Saturnino Rodrigues de. Saneamento de Campos. Campos: Tipografia de Silva, Carneiro e Cia, 1903.
COUTO REIS, Manoel Martins do. Manuscritos de Manoel Martins do Couto Reis – 1785:
Descrição geográfica, política e cronográfica do Distrito dos Campos Goitacazes. Campos dos Goytacazes: Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima; Rio de Janeiro: Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, 2011.
DIAS, Gilberto T. M. “O complexo deltaico do Rio Paraíba do Sul”. Anais do IV Simpósio do
Quaternário no Brasil (CTCQ/SBG), publicação especial nº 2: 58-79. Rio de Janeiro, 1981.
LAMEGO, Alberto Ribeiro. “Geologia das Quadrículas de Campos, São Tomé, Lagoa Feia e Xexé”. Boletim nº 154 da Divisão de Geologia e Mineralogia. Rio de Janeiro: Departamento Nacional da Produção Mineral, 1955, p. 30.
LAMEGO, Alberto Ribeiro. O Homem e o Brejo. Rio de Janeiro: Conselho Nacional de Geografia,1945.
LAMEGO, Alberto Ribeiro. Plantas dos Municípios de Campos e de São João da Barra organizadas em observância ao Decreto-Lei Nacional nº 311, de 2 de março de 1938.
LEÃO, Manoel Vieira. Carta topográfica da Capitania do Rio de Janeiro feita por ordem do Conde de Cunha, Capitão General e Vice-Rei do Brasil. Rio de Janeiro, 1767.

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