Por Arthur Soffiati
Sabe-se, por narrativas fabulosas e por poucos vestígios arqueológicos, que os povos anteriores aos portugueses a habitar a grande planície fluvio marinha do atual Norte Fluminense desceram da zona serrana. Eles faziam parte do grande grupo linguístico macro-jê. Receberam o nome de goitacá. Eles deviam ter um nome bem diferente em sua língua.
Esse povo foi cercado por auras diferentes e opostas. No século XVI, passando numa caravela ao largo da extensa praia que receberia o nome de Farol de São Thomé, o religioso calvinista Jean de Léry ouviu de um marinho que o território avistado ao longe era habitado pelo povo mais cruel da terra. O padre católico Simão de Vasconcelos confirmou o mito. Ambos nunca puseram os pés na terra habitada pelo “povo mais bárbaro da terra”. Mas escreveram sobre ele.
Em 1632, os Sete Capitães, vindos de Cabo Frio para tomar posse de suas terras no futuro Norte Fluminense, tiveram contato com os goitacases numa aldeia ao sul da Lagoa Feia e com outra na barra do rio Iguaçu, hoje lagoa do Açu. Eles vieram com os dedos no gatilho de suas armas, temendo um ataque. Foram bem recebidos. Entre os indígenas, viviam portugueses degredados e um negro, possível escravo que fugira. Além de recebidos pacificamente, os goitacás ofereceram muitos peixes e caças aos Sete Capitães e sua caravana.
A praia que receberia, posteriormente, o nome de Farol de São Thomé, foi assim o primeiro ponto de encontro de indígenas e europeus. Já no século XVIII, o “povo mais bárbaro do mundo” tinha sido exterminado por combates ou por doenças. Seus parentes mais próximos, os puris, ainda viviam na zona serrana no século XIX. Falavam língua distinta da dos goitacás, mas aparentadas. Com a proclamação da República, a visão sobre os goitacás mudou de bárbaros para heróis.
Deles, restaram na praia alguns sambaquis e outros sítios arqueológicos, listados no Plano de Manejo da Reserva Particular do Patrimônio Natural da Fazenda Caruara. Todos eles foram afetados pelo preparo da terra para plantio ou para a construção de estradas e prédios.
Única representação pictórica (bastante imaginosa) dos indígenas goitacá

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