Ticker

6/recent/ticker-posts

Erosão costeira no Farol de São Thomé

Por Arthur Soffiati

Em maio de 2026, a extremidade ocidental da Praia do Farol de São Thomé sofreu novamente com forte ressaca que erodiu a linha costeira e destruiu a estrada asfaltada que liga Campos a Quissamã pela orla. Registro a data porque não é a primeira vez que o fenômeno ocorre. Lamento dizer que a expansão urbana do Farol está invadindo áreas sujeitas a fenômenos erosivos com a estrada e casas. A prefeitura de Campos desvia cada vez mais a estrada para o interior de forma improvisada.

Por que este fenômeno acontece? Em vista de meus estudos de longos anos, por quatro fatores conjugados: 1- A praia do Farol de São Thomé se assemelha, de forma muito longe, a uma estreita e larga enseada aberta, sem nenhuma formação pedregosa no mar que permita a criação de baías protegidas. Trata-se de uma praia aberta entre Barra do Furado e o cabo de São Thomé; 2- As correntes marinhas e as ondas são muito violentas no trecho costeiro do Farol, com grande transporte de areia; 3- Os espigões ou guias-corrente construídos na foz do Canal das Flechas para manter sua foz aberta o ano todo retém areia do lado de Quissamã e erode a praia do lado de Campos; 4- as mudanças climáticas estão provocando a elevação do nível do mar e potencializando as ressacas.

Erosão costeira na ponta ocidental do Farol de São Thomé – Praia das Gaivotas 
Foto: Fabiana Henriques

Assim, áreas que pareciam seguras para obras públicas e particulares tornaram-se vulneráveis. É preciso repensar a urbanização do Farol de São Thomé. Não se trata mais de um caso emergencial para a Defesa Civil. É hora do planejamento e do setor de obras entrarem em ação. Inadmissível que não haja recursos dos royalties oriundos do petróleo para empreender obras necessárias, já que as prefeituras pouco podem fazer para reverter as mudanças climáticas. Mas podem adaptar as cidades aos novos tempos.

A ligação do Farol com Barra do Furado não pode mais passar pela costa. Uma sugestão de leigo é que ela ligue Boa Vista e a ponte sobre o Canal das Flechas. Existem áreas embrejadas no trajeto, mas sei que a engenharia de estradas pode muito bem encontrar soluções para construir uma estrada necessária e segura sem grandes impactos.

Em vermelho, traçado proposto para nova estrada entre Campos e Quissamã pela zona costeira. Em azul, polígono proposto para a nova Unidade de Conservação

Outra medida a ser tomada por Campos, Quissamã e pelo empreendimento a se instalar em Barra do Furado (caso se instale) é providenciar um sistema de passagem de areia (by-pass) no espigão esquerdo (do lado de Quissamã) a fim de que a areia retida desse lado possa passar para Campos e atenue a erosão costeira. Não cabendo à iniciativa privada uma obra não tão cara, as prefeituras dos dois municípios poderiam muito bem executar essa obra.

Mas, atenção: não vivemos mais no tempo do Departamento Nacional de Obras e Saneamento nem no da Cobráulica. Tanto a nova estrada quanto o by-pass devem ser acompanhados de compensações ambientais. A estrada de mão dupla deve evitar drenar mais ainda os terrenos alagadiços, seja cruzando-os por pontes baixas ou contornando-os. 

Sobre os canais, devem ser construídas pontes. O poder público municipal de Campos deve impedir a urbanização ao longo da nova estrada para evitar problemas futuros. Propõe-se a criação de uma Unidade de Conservação de Proteção Integral. O Lagamar ainda pode deixar de ser um ponto de recreação para voltar a ser uma Área de Proteção Ambiental, como instituiu Lei Municipal Campista de 1993. Mas é certo que esta reversão não acontecerá. Poder-se-ia pensar em efetivar a proteção do manguezal da Carapeba, mas ele já é Área de Preservação Permanente pelo próprio efeito da lei.

A proposta é que se criei uma Unidade de Proteção em torno do antigo rio Bragança, que ligava a lagoa Feia ao Lagamar e que tanta importância natural teve no passado, conservando ainda importância no presente. Não custa sonhar num mundo tão pragmático como o nosso. 

Postar um comentário

0 Comentários