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Fauna nativa do Farol

Por Arthur Soffiati

A mais antiga lista de animais silvestres da planície goitacá foi feita pelo capitão cartógrafo Manoel Martins do Couto Reis em 1785. Não era uma lista exaustiva nem poderia ser. Couto Reis foi designado pelo vice-rei do Brasil, Luís de Vasconcelos e Souza, para traçar um mapa do Distrito dos Campos dos Goitacazes, então parte da Capitania do Rio de Janeiro.

Esse distrito correspondia, em linhas gerais, às atuais regiões Norte e Noroeste Fluminense. Além de um detalhado mapa, Couto Reis redigiu um precioso relatório, em 1785, com muitas informações sobre os terrenos, os rios e lagoas, a vegetação e a fauna nativas, os povos nativos, a economia, a sociedade, os escravizados e os religiosos.

Ele elaborou uma classificação para explicar melhor a fauna sem saber talvez que, na Europa, o naturalista Lineu formulara uma nomenclatura binária para nomear todo ser vivente, ainda usada hoje em dia. Para sua lista, Couto Reis contou com o que viu e com que ouviu. Entre animais que não podemos mais imaginar vivendo na planície aluvial e da restinga estão o tamanduá-bandeira, a anta e as onças.

As plantas se locomovem pela dispersão de sementes. Os animais nadam, andam e voam. Assim como os vegetais, os animais povoaram a planície a partir da zona serrana e do mar. Eles encontraram ambientes propícios nos rios, lagoas, matas, vegetação baixa. A partir do século XIX, naturalistas europeus passaram pela planície em busca de espécies ainda desconhecidas da ciência. O caminho então existente, porém, partia de Macaé, cruzava a restinga de Quissamã, passava em Barra do Furado e seguia para Campos por Santo Amaro. De Campos, descia-se o rio Paraíba do Sul até São João da Barra, onde o rio era atravessado até Gargaú. Seguia-se para o Espírito Santo. A restinga de Paraíba do Sul não foi tão contemplada com informações dos naturalistas europeus.

Um inseto não passava despercebido pelos naturalistas europeus em todos os terrenos, principalmente os arenosos: o bicho-de-pé (Tunga penetrans). Trata-se de uma pulga que não consegue dar altos pulos, alojando-se nas partes baixas do corpo de animais de sangue quente, inclusive do ser humano. Quanto aos vertebrados, só sabemos que viviam na restinga por serem encontrados pelos cientistas neste terreno.

Bicho-de-pé (Tunga penetrans)

Agora, contudo, com a RPPN da Caruara e com o Parque Estadual da Lagoa do Açu, levantamentos de flora e fauna têm sido empreendidos por pesquisadores. Algumas das espécies encontradas por Couto Reis vivem no Pelag, lembrando que peixes e aves se locomovem mais rapidamente que anfíbios, répteis e mamíferos. Não vamos incluir as tartarugas marinhas e os mamíferos aquáticos por virem de longe e irem para longe.

Com relação aos peixes, 102 espécies foram listadas pelos pesquisadores no Pelag. Mencionemos apenas o bagre-branco (Genidens genidens) e o linguado (Catathyridium garmani), considerados como residentes, ou seja, espécies que se movimentam pouco. Entre os anfíbios (sapos e pererecas), foram listadas 47 espécies. Destaco o sapo cururu (Rhinella crucifer) e uma cecília (Chthonerpeton braestrupi).

Jacaré-de-papo-amarelo em desenho de Maximiliano de Wied-Neuwied (1815)

Foram encontradas 52 espécies de répteis, entre eles o conhecido jacaré-de-papoamarelo (Caiman latirostris), jibóia (Boa atlantica), teiú (Salvator merianae) e jabuti (Chelonoidis carbonarius). O grupo mais numeroso é formado pelas aves. Explica-se: elas voam.

Muitas são espécies migratórias. O número encontrado chegou a 476 espécies. Destaco as que são mais conhecidas pela população: chauá (Amazona rhodocorytha), freirinha (Arundinicola leucocephala), guaxe (Cacicus haemorrhous), siriema (Cariama cristata), azulão (Cyanophonia cyanocephala) e tiziu (Volatinia jacarina).

Quanto aos mamíferos, foram listadas 21 espécies, entre eles o ouriço-cacheiro (Coendou prehensilis), a capivara (Hydrochaerus hydrochaeris), a lontra neotropical (Lontra longicaudis), o tamanduá-mirim (Tamandua tetradactyla), e a preguiça-de-coleira (Bradypus torquatus).

Preguiça-de-coleira (Bradypus torquatus) registrada por Maximiliano de Wied-Neuwied em 1815

Em síntese, o Parque Estadual da Lagoa do Açu desempenha fundamental papel na proteção da fauna nativa da planície aluvial e da restinga. Trata-se de uma Unidade de Conservação que todos devem proteger, residam ou não no Farol de São Thomé.

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