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Farol de São Thomé na restinga

Por Arthur de Soffiati

Restinga é uma formação arenosa na zona costeira. Ela se constitui com a areia transportada pelas correntes marinhas e retidas por um obstáculo, que pode ser uma ilha pedregosa perto da costa ou o jato de um rio. Na Região dos Lagos, as ilhas pedregosas formaram o obstáculo para a retenção de areia e a formação de restingas. O mesmo processo verificou-se na Restinga da Marambaia. No caso do Norte Fluminense, com uma costa desprovida de ilhas entre os rios Itapemirim e Macaé, o obstáculo para a formação da maior restinga do estado do Rio de Janeiro e uma das maiores do Brasil foi o jato do rio Paraíba do Sul no mar.

Esta restinga, que batizei com o nome de Restinga do Paraíba do Sul, estende-se do rio Guaxindiba a Barra do Furado. Ela começa estreita junto ao rio Guaxindiba, alarga-se na foz do Paraíba do Sul e vai se estreitando até o Cabo de São Thomé. A partir desse ponto, transforma-se numa estreita faixa de areia até Barra do Furado. Aí, ela faz a conexão da Restinga do Paraíba do Sul com a Restinga de Quissamã.

Aos olhos leigos, parece que se trata de uma só restinga com duas partes gordas ligadas por um cordão arenoso de 28 quilômetros. O olhar do especialista mostra, contudo, que a restinga de Quissamã tem cerca de 120 mil anos, enquanto que a de Paraíba do Sul, incluindo a faixa de 28 quilômetros, conta com menos de 5 mil anos.

Mapa “Americae Sive Quartea Orbis”, de Diego Gutierrez (1562), assinalando o Cabo de São Thomé

No século XVI, poucos exploradores europeus ousavam pôr os pés nesse continente arenoso, que tinha atrás de si uma planície aluvial. Sobretudo depois que o missionário calvinista francês Jean de Léry escreveu, em meados do século XVI, que essa parte da América era habitada pelo povo mais cruel do mundo. Ele falava dos goitacás. Daí que as descrições eram feitas a partir das caravelas. Nos mapas e nos roteiros, figura uma costa que, a partir do Cabo de São Thomé apresenta uma curvatura de quase noventa graus do norte para o oeste.

Nesses primeiros tempos, o rio mais conhecido era o Managé, hoje chamado de Itabapoana. Em caráter permanente, os europeus pisaram essa restinga no século XVII. Foram pescadores vindos de Cabo Frio que se instalaram em Atafona, em 1622, e proprietários de terras, jesuítas e beneditinos, a partir de 1632 começando a colonizar a planície a partir dessa longa feixa de areia.

Nesses 28 quilômetros, ergueu-se a localidade de Barra do Furado. Mais tarde, ergueram-se as localidades do Farol de São Thomé e de Xexé. Nos anos de 1990, percorri toda essa extensão de areia entre Xexé e Barra do Furado para fins acadêmicos. Primeiro de bugre.

Depois a pé. O objetivo era localizar manguezais, que existem só nas pontas da faixa arenosa: Na Barra do Açu e em Barra do Furado. Bem recentemente, passei a suspeitar que vestígios de mangue podem ser encontrados no Lagamar.

Cabo de São Tomé – foto do autor

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