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    Mangue vermelho: notas de um historiador

    Por Arthur Soffiati

    Vermelho é o mangue/Vermelho o aratu/Vermelho é o sangue/Vermelho o caju/Vermelho o guará/Também o guaraná/Vermelho é o tiê/Vermelho a pitanga.

    Mangue vermelho: marca registrada e símbolo da globalização do manguezal

    O gênero “Rhizophora” está presente, com suas várias espécies, em todos os manguezais do planeta. Assim como a atmosfera e a vida, o manguezal está presente em todo o mundo intertropical, avançando um pouco acima do trópico de Câncer e um pouco abaixo da trópico de Capricórnio. De preferência, nos estuários, mas também em certas ilhas e certas praias que lhe oferecem condições mínimas para prosperarem. O mangue vermelho estava presente na origem desse ecossistema tão singular, no Sudeste Asiático. Dali, ele navegou a leste e a oeste, passando pela seleção natural, adaptando-se e gerando novas espécies. Sempre com sua característica: o caule se ramifica e assume o aspecto de uma aranha. Sua semente (propágulo) é também inconfundível: comprida como uma vareta e afilada numa das pontas, como uma caneta. É a árvore perfeita do manguezal, funcionando como sua marca registrada ao lado da lama em que se sustenta.

    Muitas são suas espécies, todas elas integrantes de um gênero: “Rhizophora annamalayana”, “R. apiculata”, “R. harisonii”, “R. lamarckii”, “R, mangle”, “R. mucronata”, “R. racemosa”, “R. samoensis”, “R. stylosa”. Convencionou-se que o país mais oriental do mundo, o primeiro país a servir como ponto zero para a contagem do dia, é Kiribati, formado por 33 ilhas coralígenas no oceano Pacífico. Lá, o mangue vermelho é comum. Depois, o encontramos nos demais países formados por ilhas também no Pacífico, na Austrália, nas incontáveis ilhas da Indonésia, no sul da China, no Sudeste Asiático, na Índia, no Sri Lanka, nas costas oriental e ocidental da África, na costa oriental da América e na sua costa ocidental até o rio Tumbes e no arquipélago de Galápagos.

    Os manguezais mais afastados da linha equatorial, ao norte, encontram-se no Japão. Mais precisamente na foz do rio Minatogawa, na ilha de Tanegashima. Nessa ilha, cujas coordenadas são 30°34′26″N 130°58′52″L., ocorreu o primeiro encontro entre japoneses e portugueses, no século XVI. A confiar na informação de Gerard Taaffe, que não parece ser um especialista em manguezais, a espécie que aí ocorre, é a “Rhizophora candel” (TAAFFE, Gerard. Rare mangroves left unprotected. The Japan Times, 28 de fevereiro de 2001). Os estudiosos sabem que as plantas de manguezal diminuem de porte à medida que se afastam da linha do equador. Nessa ilha, as plantas são arbustivas, de pequena estatura. Mas lá está o mangue vermelho a assinalar que ali se encontra um manguezal.

    Encontro pessoal

    Encontrei o mangue vermelho pela primeira vez em 1955, na ilha do Mel, baía de Paranaguá, Paraná. Meu pai foi designado para chefiar o forte Nossa Senhora dos Prazeres nas férias de seu comandante. Eu tinha oito anos e era encarregado de buscar a marmita da família numa senhora que cozinhava para fora. Certo dia, desci a escada de madeira do forte em direção à casa da cozinheira e passei por um córrego que descia de um morro e defluía no mar quando a maré permitia. Era uma água avermelhada. Parei para admirá-la. Olhei para o córrego e vi uma árvore dentro d’água com seus tentáculos. Fiquei maravilhado e, ao mesmo tempo, assustado. Aquela árvore contrariava o padrão conhecido de árvore: um tronco sobre um aranhol de raízes e mergulhado n’água.

    Só em 1980, voltei a encontrar o mangue vermelho, dessa vez na foz do rio Paraíba do Sul, então totalmente envolvida pelo município de São João da Barra, que se constituiu em torno de suas margens. Mais uma vez, contemplei a sua imponência. Sessenta e seis anos depois, voltei ao local do meu primeiro encontro, mas não havia nenhum exemplar adulto do mangue vermelho no riacho, que continuava lá. Apenas uma muda que prometia crescer se deixassem. Os manguezais orlam a ilha, com o mangue vermelho presente em outros pontos.
    Plântula de mangue vermelho no ponto 0 da minha vida

    Encontro dos europeus com o mangue vermelho

    Milhões de anos após a colonização da zona intertropical pelo manguezal, outras globalizações de civilizações se processaram e, finalmente, a maior de todas as globalizações humanas começou no século XVI. Ela foi iniciada pelos portugueses no século XV, representando a civilização ocidental. Até então, as informações sobre o manguezal eram escassas e chegavam através de livros de greco-romanos e islâmicos. Os europeus não conheciam o ecossistema que se desenvolvia preferencialmente nos estuários de rios com curso na zona intertropical.

    Durante todo o século XV, os portugueses devem ter topado com ele, mas ainda não se conhecia a palavra mangue. Navegantes famosos, como Cadamosto, Pedro Sintra (CADAMOSTO, Luís de e SINTRA, Pedro de. Viagens. Lisboa: Academia Portuguesa da História, 1948), Duarte Pacheco Pereira (PEREIRA, Duarte Pacheco. Esmeraldo de Situ Orbis. Lisboa: Tipografia Universal, 1905), Bartolomeu Dias, Cristóvão, Vasco da Gama (GAMA, Vasco da. O descobrimento das Índias: o diário de Vasco da Gama. Rio de Janeiro: Objetiva, 1998), Pedro Álvares Cabral (PEREIRA, Paulo Roberto (org). Os três únicos testemunhos do descobrimento do Brasil. Rio de Janeiro: Lacerda, 1999) e Fernão de Magalhães (PIGAFETTA, Antonio. A primeira viagem ao redor do mundo. Porto Alegre: L&PM, 1997) (a serviço da Espanha) falam de vegetação em suas rotas, mas não a descrevem de modo que possamos identificá-la. Ahmad Ibn-Magid, o piloto árabe que orientou Vasco da Gama na rota da África Oriental à Índia, também não faz registro explicitador: “São baixios pantanosos, juntos a montanhas – conhece-os só o meu Deus, Senhor glorioso.” (CHUMOVSKY, T. A. Três roteiros desconhecidos de Ahmad Ibn-Majid. Lisboa: Comissão Executiva das Comemorações do V Centenário da Morte do Infante D. Henrique, 1960). 

    Teixeira da Mota observa que “O termo ‘mangue’ regista-se em várias fontes desde fins do século XVI. Hoje, no português, prevalece a forma ‘mangal’, embora também se use ‘mangue’, para designar várias espécies de “Rhizophora”, “Laguncularia” e “Aviccenia”. (MOTA, A. Teixeira. Notas a DONELHA, André. Descrição da Serra Leoa e dos rios de Guiné e do Cabo Verde. Lisboa: Junta de Investigações Científicas do Ultramar, 1977). No século XIX, Martius esclarecerá que a palavra “mangue” tem origem malaia. Portanto, ela não podia ser empregada no século XV e em boa parte do século XVI, até ser incorporada à língua portuguesa.

    Consta que, no Brasil, a primeira descrição do ecossistema mangue e da planta mangue vermelho foi feita pelo Padre José de Anchieta em carta datada de maio de 1560: “DA ÁRVORE MANGUE: Também há outras árvores, que por toda parte cobrem os braços de mar, onde crescem: cujas raízes estendendo-se, umas desde quase o meio do tronco, outras do ponto em que os galhos ao nascer se levantam, quase do comprimento da lança, pouco a pouco vergam para a terra, até lá chegarem depois de muitos dias.” (ANCHIETA, José de. “Carta fazendo a descrição das inúmeras coisas naturais, que se encontram na província de S. Vicente hoje S. Paulo”. In:  Cartas inéditas. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas/Instituto de Documentação, 1989).

    No século XVI, Gabriel Soares de Souza também se admira diante da  árvore: “Canapaúba é outra casta de mangues, cujas árvores são muito tortas e desordenadas, muito ásperas da casca, cujas pontas tornam para baixo em ramos muito lisos, enquanto novos e direitos, e vêm assim crescendo para baixo, até que chegam à maré; e como esta chega a eles logo criam ostras, com o peso das quais vêm obedecendo ao chão até que pega dele, e como pega logo lança ramos para cima, que vão crescendo mui desafeiçoados, e lançam mil filhos ao longo d’água, que tem tão juntos que se afogam uns aos outros”. (SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado descritivo do Brasil em 1587, 3ª ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1938). Ainda no século XVI, Fernão Cardim maravilhava-se com aquela estranha árvore: “E logo deitam muitas trempes, e raízes na terra, e todas estas árvores estão encadeadas e feitas em trempes, e assim as raízes, e estes ramos tudo fica preso na terra; enquanto são verdes estes gomos são tenros, e porque são vãos por dentro se fazem deles boas frautas.” (CARDIM, Fernão. Tratados da terra e gente do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1980).

    Depois de fracassar na criação de uma colônia no Rio de Janeiro, em meados do século XVI, os franceses fizeram nova tentativa no século XVII no Maranhão. Pretendia-se criar a França Equinocial. Vários franceses envolveram-se no empreendimento. Missionários também se engajaram, entre eles Ive Devreux e Claude d’Abeville. Este segundo também deslumbrou-se com o manguezal e com o mangue vermelho: “há tantas ilhas ao longo da costa que se faz impossível chegar à terra firme; tanto mais quanto esta se acha coberta de certas árvores que dão o nome de Apparituriers, cujos galhos se vergam ao tocarem o chão, criam raízes formando outras árvores que crescem e deitam novos galhos, os quais criam raízes e formam novas árvores; e de tal modo se entrelaçam árvores e raízes que parecem constituir uma só planta alastrando-se por toda parte. Quando outra coisa não houvesse, isso bastaria para tornar a costa inacessível a ponto de não se poder imaginar sem o ter visto. Somente um puro espírito, suscetível de penetrar através das coisas, ou um pássaro capaz de voar por cima delas, poderia atravessar esses baluartes erguidos por Deus e pela natureza em redor do país. Mas o acesso se torna tanto mais difícil quanto nessas ilhas e sob os apparituriers, só se deparam charcos e areias movediças, nas quais a gente afunda até a cintura e mesmo até a cabeça e das quais uma vez atolado, não há força humana capaz de safar o sujeito. E acontece ainda que duas vezes ao dia, cobre a maré esses pântanos e areias movediças e passa por cima das raízes dos apparituriers erguidas além da superfície da terra, em muitos lugares à guisa de altas muralhas.” (ABEVILLE, Claude d’. História da missão dos padres Capuchinhos na ilha do Maranhão e terras circunvizinhas. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1975).

    Da zona costeira da África, também chegaram notícias de portugueses e nativos aculturados sobre o manguezal. André Alvares D’Almada, menciona o ecossistema várias vezes, mas não entra em detalhes (ALMADA, André Alvares D’. Rios de Guiné do Cabo Verde. Porto: Tipografia Comercial Portuense, 1841). Em 1625, André Donelha escreve sobre o mangue vermelho na costa ocidental da África: “O mangue é mui rijo; as folhas arremedam a do loureiro, mas mais grossas e lisas; não dá fruto, mas dá umas flores pequenas, a modo de coroa de romã. Delas sai a raiz, a modo de uma vela de cera, e vem crescendo para baixo a buscar a terra, sempre direitos como um pique, delas de grossura de um dedo e como a vara da justiça, delas de comprimento de dois e três piques e de menos, segundo a altura do mangue, e se faz algum nó dele saem cinco ou seis raízes. Tanto que dá na vasa, prende e se engrossa e deita ramos e folhas, que cresce para cima até dar flor e deitar outras raízes. Não se achará mangue que tenha o pé em terra, senão no ar, sobre raízes, de maneira de um braço e mão com os dedos abertos postos sobre uma mesa ou no chão, que servem das raízes. Sempre têm os mangues as folhas verdes, posto que caiam muitas, não se verão sem folhas.” (DONELHA, André. Descrição da Serra Leoa e dos rios de Guiné e do Cabo Verde. Lisboa: Junta de Investigações Científicas do Ultramar, 1977). 
    Na “Descrição da costa da Guiné desde Cabo Verde até a Serra Leoa etc”, atribuída a Francisco de Azevedo Coelho e datada de1669, assim como na “Descrição da costa de Guiné e situação de todos os portos e rios dela”, creditada a Francisco de Lemos e datada de 1684, o mangue é mencionado várias vezes, mas sem destaque para o mangue vermelho (PERES, Damião (introdução e anotações históricas). Duas descrições seiscentistas da Guiné. Lisboa. Academia Portuguesa da História, 1953). 

    Da costa oriental da África, menciono apenas um relatório nomeando a ocorrência de “Rhizophora mucronata” em Moçambique, mas sem desenho (GOVERNO DE MANICA E SOFALA. Breve notícia sobre Manica e Sofala, 1956).

    Ao enumerar as espécies de manguezal de Timor, Affonso de Castro começa com o gênero “Rhizophora”, mas não a ilustra com nenhum desenho (CASTRO, Affonso de. As possessões portuguesas na Oceania. Lisboa: Imprensa Oficial, 1867). Os portugueses eram avaros com representações visuais.

    Economia

    Os povos pioneiros das terras intertropicais incorporaram os manguezais à sua economia, com o mangue vermelho merecendo atenção especial. Existe uma espécie de ostra que se desenvolve nas ramificações do caule da planta. Era comum cortar a ramificação e levar o cacho de ostras com o fim de prepará-las ou comê-las diretamente. Existe mais de um relato sobre as propriedades medicinais do caule, das folhas e da semente (propágulo) do mangue vermelho. 

    No período colonial brasileiro, Antonil percebeu a importância econômica do manguezal: “Ter olaria no engenho, uns dizem que escusa maiores gastos, porque sempre no engenho há necessidade de formas, tijolo e telha. Porém, outros entendem o contrário, porque a fornalha da olaria gasta muita lenha de armar, e muita de caldear, e a de caldear há de ser de mangues, os quais, tirados, são a destruição do marisco, que é o remédio dos negros. E, além disto, a olaria quer serviço de seis, ou sete peças, que melhor se empregam no canavial ou no engenho, quer oleiro com soldada, roda e aparelho, e quer apicus, ou barreiro, donde se tire bom barro, e tudo isto pede muito gasto, e com muito menos se compram as formas e as telhas que são necessárias. O melhor conselho é meter um crioulo em alguma olaria, porque este ganha a metade do que faz, e em um ano chega a fazer três mil formas, das quais o senhor se pode valer com pouco dispêndio. Tendo, porém, o senhor do engenho muita gente, lenha e mangues para mariscar de sobejo, poderá também ter olaria, e servirá esta oficina para grandeza, utilidade e comodidade do engenho.” (ANTONIL, André João. Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas. São Paulo: Melhoramentos/Brasília: INL, 1976).

    O mangue vermelho não aparece na passagem. O autor se refere apenas ao ecossistema. No Rio de Janeiro do século XVII, Jesuítas e moradores da cidade se enfrentaram por conta do manguezal. A população ganhou a contenda. Na Bahia, curtumes e pescadores também se chocaram por causa de interesses econômicos antagônicos. Os ricos desejavam o monopólio do mangue vermelho para obtenção de tanino para a curtição. Os pescadores queriam a árvore em pé para atrair o pescado. A Coroa portuguesa interveio no conflito, baixando um alvará (SOFFIATI, Arthur. O manguezal na história e na cultura do Brasil. Campos dos Goytacazes: Faculdade de Direito de Campos, 2006).

    Ciência

    A rigor, os primeiros cientistas que olharam para o mangue no Brasil e no mundo tropical foram os holandeses. No Brasil, Guilherme Piso, durante a dominação holandesa do Nordeste, entre 1530 e1554, teve a sua atenção atraída para o mangue vermelho. Em seu tempo, ainda não existia a nomenclatura binária para batizar espécies. Assim, o naturalista holandês chamo o mangue pelo nome que os nativos lhe davam. Ele desenhou um cacho de propágulos da planta em seu livro (PISO, Guilherme. História natural e médica da Índia Ocidental. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1957).
    Representação de propágulo de mangue vermelho (Rhizophora sp) por Guilherme Piso, em 1648.

    Além de Linneu, o naturalista sueco criador da nomenclatura binárias para batizar espécies e ainda em voga, Nikolaus Joseph von Jacquin (1727–1817) foi o segundo a usar tal nomenclatura. Em seu livro sobre a Colômbia e o Caribe, o mangue vermelho chamou-lhe logo a atenção. Ele e seu acompanhante Ferdinand Bauer desenharam algumas espécies de mangue, com destaque para o mangue vermelho, todos eles ilustrando seu livro em dois volumes (JOAQUIM, Nikolaus Joseph von. Relato de uma seleção de plantas da América, 2 vols. Viena, 1763).  
    Estampa de “Rhizophora mangle” contidas em “Relato de uma seleção de plantas da América”

    O grande naturalista alemão Carl Friedrich Philipp von Martius também dedicou um capítulo da sua monumental obra ao mangue vermelho. Seu encontro com a planta, exótica para um europeu, ocorreu em São Paulo (MARTIUS, Carolus Fridericus Philippus de e EICHLER, Augustus Guilielmus (Urban, Ignatius, iisque defunctis successor). Flora Brasiliensis Enumeratio Plantarum in Brasilia Hactenus Detectarum. S/l: s/d.).
    Mangue vermelho na obra de Martius

    John James Audubon (1785–1851) foi um naturalista nascido nos Estados Unidos, dedicando-se à ornitologia e à ilustração. Ao tratar do cuco-do-mangue, onde ele faz a ave pousar? Poderia ser em qualquer árvore do mangue sem a preocupação de detalhá-la. Mas ele pousa o cuco no ramo de um mangue vermelho (AUDOBON, John James. The birds of America, volume four. New York: Dover Publications, 1967).
    Cuco do mangue segundo Audubon

    Na baia da Guanabara, o naturalista alemão Hermann Burmeister observa: “Ao entrar no rio Macacu, os arbustos de mangue (“Rhizophora mangle” L.) aproximam-se de ambos os lados cada vez mais, e a água torna-se francamente castanha, mas clara, assim como um café bem fraco.” (BURMEISTER, Hermann. Viagem ao Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1980).

    E o naturalista brasileiro Francisco Freire Alemão escreveu sobre o manguezal e o mangue vermelho quando esteve no Ceará, presidindo a Comissão Científica de Exploração (ALEMÃO, Francisco Freire. “Mangue de aspecto florestal” 02/05/1859. Vol 2 (maio-junho). Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, I-28,7,3 (1-20). No início do texto, ele desenha um grupo da espécie em forma de esboço. Ele também deixa uma nota sobre o ecossistema: “Uma boa parte desse alagadiço, à beira do rio, está coberta de mangues. Foi para mim de grande admiração e surpresa a vista desses mangues; e custou-me a acreditar que estas enormes árvores eram os mesmíssimos nossos mangues. Figure-se uma floresta de árvores de 80 pés de altura, um pouco tortuosas, grossas em proporção, e com as numerosas e gigantescas arcadas de suas raízes, emaranhadas de modo a [tornar] difícil [a] passagem a um cão e tal era o espetáculo que se me oferecia. As Rizóforas eram as mais corpulentas, estavam carregadas de frutos (estes me parecem menores que os das nossas) e de lá de cima de seus ramos mandavam raízes aéreas, que estavam pendentes. A madeira desta árvore é fusca e dura (não lhe vi branca); o seu cerne, que aqui chamam miolo ou coração, serve para muitas obras; mas disse-me o Sr. Gouveia Filho que na terra pouco dura. Depois eram as Avicênias; uma delas vi que tinha 3 palmos talvez de diâmetro; o seu cerne é pardo, e duro. Enfim as Lagunculárias que vi tinham o porte duma boa goiabeira nossa. Não achei o Conocarpus, que vi em Mucuripe pela primeira vez.” (FREIRE ALEMÃO, Francisco. “Papéis da Expedição ao Ceará: viagem a Vila Velha, e Barra do Ceará”. In: DAMASCENO, Darcy e CUNHA, Waldir da (orgs.). Anais da Biblioteca Nacional vol. 81. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, 1961). 
    Manguezal no Ceará, por Francisco Freire Alemão

    Freire Alemão estava diante de um bosque de mangue nas proximidades do equador, onde eles assumem dimensões florestais, como aqueles que conheci no Pará e no rio Parnaíba. Num deles, eu subi para beijar seu tronco em sinal de respeito e fascínio.

    E o notável botânico campista Alberto José de Sampaio escreveu: “Assim, “Rhizophora mangle” na América, na África e nas Costas da Oceania; “R. mucronata” na costa asiática; essas duas espécies são vicariantes, uma representa a outra, representando o gênero Rhizophora que dá uma mesma fisionomia aos mangues da Ásia, da América, África e Oceania. Há no entanto outros mangues, com uma flora genérica e específica diversa; o que quero frisar é que os mangues do Brasil não são nem exclusivamente brasileiros, nem somente americanos” (SAMPAIO, Alberto José de. Fitogeografia do Brasil, 3ª ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1945).

    Sensível a observação de Sampaio. Por um lado, ele conclui que o manguezal não é um ecossistema que se possa entender como brasileiro num livro sobre os biomas brasileiros, mas que povoa o mundo intertropical. Ele traz fundamento à tese que defendo de uma globalização promovida pelo manguezal, assim como o ar, a flora e a fauna. Mas aqui, a flora está mais especificada.

    Arte

    Geralmente desconhecedores das minúcias do manguezal, o artista plástico tem sua atenção logo voltada para o mangue vermelho. É a espécie dos estuários tropicais mais retratada juntamente com a lama e com o caranguejo. Mencionarei apenas Rugendas para ilustrar esse fascínio pela planta no século XIX, que muitas vezes vinha de mistura com repúdio pela vasa fétida (RUGENDAS, João Maurício. Viagem pitoresca através do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1979).
    Detalhe do manguezal na foz do rio Inhomirim, baía de Guanabara. João Maurício Rugendas

    Vários outros artistas o retrataram posteriormente. Armando de Magalhães Corrêa ilustrou dois livros seus com o mangue vermelho, destacando-o mais no dedicado às ilhas da baía de Guanabara, em que assume postura científica e pedagógica (CORRÊA, Armando de Magalhães. Águas cariocas: a Guanabara como natureza. Rio de Janeiro: Outras Letras, 2016).
    Detalhes de folhas, flores e propágulos de mangue vermelho em bico-de-pena de Magalhães Corrêa

    Nesse bico-de-pena, o artista anota que o mangue vermelho é também conhecido como mangue verdadeiro, como procede Manuel Pio Corrêa no verbete “Mangue-verdadeiro” (CORRÊA, Manuel Pio. Dicionário das plantas úteis do Brasil e das exóticas cultivadas, vol.V. Rio de Janeiro: Ministério da Agricultura/Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal, 1984).

    Na arte popular, o mangue vermelho é também o que se apresenta com grande plasticidade para os artistas. Alguns deles vivem na borda do mangue e dependem dele como fonte de subsistência. Nas minhas andanças pelo Brasil, tenho procurado adquirir telas de pintores desconhecidos, mas íntimos do manguezal. Selecionei um quadro de Cavalcante, pintor paraense, para ilustrar a arte naïf inspirada pelo manguezal, notadamente pelo mangue vermelho e pelo guará, que também é vermelho.
    Um manguezal do Pará na visão naïf de Cavalcante: mangue vermelho, guarás (aves desaparecidas dos manguezais do Nordeste, Sudeste e Sul) e caranguejo.

    O artista polonês Frans Krajcberg, radicado no Brasil, viu, na natureza destruída pela mão humana, material para suas monumentais esculturas. O mangue vermelho sobretudo não podia escapar de sua arguta percepção. Por mais de uma vez, ele foi representado em seus desenhos e esculturas. Ilustro sua obra com a famosa “Flor do mangue”, escultura de 1965.
    Flor do mangue, de 1965. Mangue vermelho como inspiração

    O maior centro produtor de arte que toma o manguezal como motivo é Recife. Os manguezais de Pernambuco inspiraram a poesia de João Cabral de Melo Neto, a ficção de Josué de Castro, a música do “Manguebeat”, a fotografia de Maureen Bisiliat e coreografia de Deborah Colker. Atualmente, é grande o número de pintores que passam pelo mangue e percebem a plasticidade do mangue vermelho. Ele está presente nas telas de Antonio Mendes, Sandro Maciel, Wagner Ribeiro, Marcelo Peregrino Samico, Filipe Arruda, Feliciano dos Prazeres, Bruno de Souza Leão e outros. Tomemos uma tela de Feliciano dos Prazeres para ilustrar essa onda promissora de artistas interessados pelo manguezal, frequentemente ilustrando este ecossistema com o mangue vermelho.
    Mangue I – Feliciano dos Prazeres

    Minha terra tem mangue vermelho/Onde canta o martim-pescador

    O território que se transformaria no suporte da região norte do Estado do Rio de Janeiro é limitado, ao norte, pelo rio Itabapoana e, ao sul, pelo rio Macaé. Entre ambos, correm os rios Guaxindiba, Paraíba do Sul, o antigo Iguaçu (hoje com a barra fechada e com o nome de Açu) e o canal da Flecha, aberto por força humana e ligando a lagoa Feia ao mar). Além desses, existem, nos tabuleiros de São Francisco de Itabapoana, vários córregos que, no passado, contavam com manguezais. Também as lagoas de Gruçaí e Iquipari abrigavam manguezais.

    Atualmente, o mangue vermelho habita os rios Itabapoana, Guaxindiba, Paraíba do Sul e Macaé. O maior de todos é o rio Paraíba do Sul. Existem nele exemplares expressivos de mangue vermelho. Assim também, mas em menor proporção, no rio Itabapoana. Podemos encontrar alguns exemplares pujantes no pequenino rio Guaxindiba e uma população acachapada de mangue vermelho na lagoa do Açu. No rio Macaé, a espécie está seriamente ameaçada pela urbanização desenfreada que vem ocupando as margens do rio de mesmo nome e suprimindo os manguezais. Exemplares isolados e raquíticos podem ser encontrados na lagoa de Iquipari. 
    Conjunto de mangue vermelho na lagoa do Açu

    Medidas urgentes para proteção dos resquícios de manguezal e para a ampliação de sua área tornam-se urgentes.
    Estuário do rio Paraíba do Sul – desenho de Percy Lau mostrando mangue vermelho, caranguejo-uçá e martim-pescador

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