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Do rio Imbé a Barra do Furado


Por Arthur Soffiati

Quem examina a Serra do Mar num mapa geológico, ou mesmo no Google Earth, notará que ela começa (ou termina) no norte do Rio Grande do Sul e termina (ou começa) no sul da Bahia. Ao longo dela, existem rebaixamentos. Um deles fica no norte do Rio de Janeiro. Por ele, o rio Paraíba do Sul passa para desembocar no mar na altura de Itereré, próximo à lagoa de Cima, há cerca de cinco mil anos antes do presente. Ao longo de mais cinco mil anos, o rio transporta sedimentos da zona serrana e aterra progressivamente o mar na parte mais baixa dele, ao mesmo tempo em que ocorre o seu recuo. Formou-se, assim, uma grande planície em que o rio construiu o seu próprio leito, desembocando no mar em ponto cada vez mais distante da serra.

Enquanto o curso do Paraíba do Sul corre ao pé da Serra do Mar pelo lado esquerdo ou interno, pelo pé direito ou externo corre o rio Imbé, que recebe pequenos rios que descem da zona montanhosa. Assim, a Serra do Mar funciona como divisor de águas que separa a bacia do Paraíba do Sul da bacia do Imbé. Este também ajudou na construção na planície, mas em escala menor e de forma descontínua. De Itereré a Atafona, onde alcança o mar, o Paraíba do Sul alimenta lagoas em ambas as margens, mas não atravessa lagoas. Esta peculiaridade permite acompanhar seu curso com mais clareza do ponto em que deixa a serra ao ponto em que entra no mar.

Á primeira vista, o Imbé encontra uma lagoa na sua foz – a lagoa de Cima – e termina nela. Mas esta lagoa forma o rio Ururaí na outra ponta. Podemos entender que o rio Imbé encontra uma lagoa no meio do caminho e continua no rio Ururaí, na sua ponta leste. 
Rio Ururaí na saída da lagoa de Cima, vista ao fundo
A configuração geográfica fica mais complexa quando se verifica que o rio Ururaí é interceptado pela lagoa Feia e não alcança o mar, como o Paraíba do Sul. Examinando a lagoa Feia no setor sul, em mapa antigo, percebemos que dela saíam inúmeros canais naturais que se juntavam e formavam um rio que, outrora se chamava Iguaçu. Esse rio chegava ao mar no local hoje conhecido como Barra do Açu. Será que poderíamos considerar o rio Iguaçu como a continuação do rio Ururaí e o Ururaí com como continuação do rio Imbé? Se podemos, existia então um complexo formado por rios e lagoas que alcançava o mar.

Quanto ao Paraíba do Sul, não há dúvida que ele apresenta continuidade visível em toda a sua extensão, mesmo no trecho final em que forma seu próprio leito ao construir a planície aluvial. De certa forma, o rio Imbé poderia ajudar na construção da maior planície do Estado. Mas estudiosos mostram que os sedimentos transportados pelo Imbé da zona serrana ficam retidos na lagoa de Cima. Assim, o rio Ururaí, a lagoa Feia e o rio Iguaçu não podem ser entendidos sem a contribuição do Paraíba do Sul. Porém, com esforço, podemos distinguir duas bacias hídricas distintas – a do Paraíba do Sul e a do Iguaçu – ambas interligadas.
Legenda: A- Serra do Mar (Imbé) como divisor de águas; 
1- rio Paraíba do Sul; 2a- rio Imbé; 2b- lagoa de Cima; 
2c- rio Ururaí; 2d- lagoa Feia; 2e rio Iguaçu

 Pela margem direita do rio Paraíba do Sul, assim que ele saía da zona serrana, havia um defluente que recebeu dos colonos o nome de Itereré. Era um braço do rio Preto já na planície. Um braço seguia para o rio Ururaí e, nas cheias, outro braço dirigia-se para o Paraíba do Sul. O Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS) canalizou este trecho do rio Preto e o transformou no canal de Itereré. Mais abaixo, o defluente do Cacumanga partia do Paraíba do Sul em direção ao rio Ururaí. Ainda mais abaixo, na altura onde hoje se ergue a cidade de Campos, o rio Paraíba do Sul bifurcava-se. Um braço seguia para Atafona, onde fica sua embocadura atual. O outro corria em direção ao Farol de São Tomé e se tornou célebre nos séculos XVII, XVIII e XIX com o nome de Grande Canal ou córrego do Cula. Barrado pela restinga nas proximidades do cabo de São Tomé, ele se espraiou e formou o banhado da Boa Vista. O rio Iguaçu entrava no Boa Vista por uma ponta e saía por outra em direção ao mar. No banhado, ainda, desembocava o rio Água Preta, que também nascia no rio Paraíba do Sul. Antes de entrar no mar, o rio Iguaçu recebia água do rio Veiga.

A primeira interferência humana no sistema Iguaçu data de 1688. O grande proprietário de terra José de Barcelos Machado abreviou o rio Iguaçu abrindo uma vala entre ele e o mar que passou a ser conhecida como vala do Furado. Em tempo de cheia, a barra da vala era aberta para escoar o excedente hídrico para o mar. Assim que as águas acumuladas no continente perdiam a força, as correntes marinhas tapavam a barra e as águas voltavam a fluir normalmente pelo rio Iguaçu até sua foz.
Legenda: A- Serra do Mar (Imbé) como divisor de águas;
1- rio Paraíba do Sul; 2a- rio Imbé; 2b- lagoa de Cima;
2c- rio Ururaí; 2d- lagoa Feia; 2e rio Iguaçu;
 traço em vermelho: vala do Furado
 A segunda interferência data do final do século XIX, quando o engenheiro Marcelino Ramos da Silva abriu o canal de Jagoroaba, inteiramente em terreno de restinga ligando a lagoa Feia ao mar no ponto em que ela mais se aproxima da costa. A obra foi um fracasso. Voltou-se então à vala do Furado.
Legenda: A- Serra do Mar (Imbé) como divisor de águas;
1- rio Paraíba do Sul; 2a- rio Imbé; 2b- lagoa de Cima;
2c- rio Ururaí; 2d- lagoa Feia; 2e rio Iguaçu; traço vermelho:
vala do Furado; traço verde: canal de Jagoroaba
 Remanescentes do canal de Jagoroaba

Quando o DNOS começou a atuar, uma de suas obras foi canalizar o rio Ururaí entre a localidade do mesmo nome até a lagoa Feia. Essa canalização dava ao baixo curso do rio um aspecto de linhas quebradas. Da localidade de Ururaí até a lagoa de Cima, o rio continuava com seu curso sinuoso. 
Legenda: A- Serra do Mar (Imbé) como divisor de águas; 
1- rio Paraíba do Sul; 2a- rio Imbé; 2b- lagoa de Cima; 
2c- rio Ururaí; 2d- lagoa Feia; 2e rio Iguaçu; traço vermelho:
 vala do Furado; traço verde: canal de Jagoroaba; 
traços em marrom (superior): parte baixa do rio Ururaí 
canalizado; (inferior): canal da Flecha

 Entre 1942 e 1949, o DNOS rasgou o longo e largo canal da Flecha, ligando a lagoa Feia à barra da vala do Furado, que desapareceu. O rio Iguaçu foi cortado por esse canal – que ganhou o nome de Flecha – ligou o rio Ururaí ao mar. O DNOS criou, assim, uma espécie de rio que passou a desembocar no mar, como o rio Paraíba do Sul. É a conclusão a que se pode chegar quando se conhece o aranhol hídrico da região. O sistema hídrico do Ururaí ou Iguaçu, ficou então assim: rio Imbé – Lagoa de Cima (zona serrana) – rio Ururaí – lagoa Feia – canal da Flecha (planície fluviomarinha). 
Trecho final do canal da Flecha, mostrando a bateria de comportas

Mas a manutenção da barra do canal da Flecha aberta permanentemente não deu certo. O mar continuou jogando areia nela e a vedando. O DNOS concebeu, então, seu prolongamento mar adentro por meio de dois espigões de pedra retiradas do morro do Itaoca, na margem direita do rio Ururaí. O prolongamento também não deu certo. Ele até agravou o problema, pois o espigão da margem direita, do lado de Quissamã, passou a reter areia. A praia engordou. Na margem esquerda, do lado de Campos, o mar erodiu a praia. Várias tentativas foram feitas para corrigir o problema. Nenhuma surtiu efeito. Agora, está instalada uma draga que se limita a desentupir a barra do canal da Flecha.
Prolongamento dentro do mar do canal da Flecha 
por meio de dois espigões de pedra

As transformações não cessaram. Tudo leva a crer que o DNOS não tinha consciência quanto a transformar o sistema Ururaí-Iguaçu numa réplica em tamanho menor do Paraíba do Sul. Desde a década de1920, existia o projeto de aprofundar o leito da lagoa Feia em seu centro, como um rio submerso. O DNOS retomou esse projeto. Um canal submerso ligaria a foz do Ururaí, na lagoa Feia, ao início do canal da Flecha. A esse canal central, seriam ligados dois canais menores, abertos nos lados do canal central: um ligaria o rio Macabu ao Ururaí submerso. O outro partiria do canal de Tocos e também atingiria o canal central. O sistema assumiria a seguinte feição: rio Imbé – lagoa de Cima – rio Ururaí na superfície – rio Ururaí submerso na lagoa Feia e recebendo dois afluentes também submersos – canal da Flecha – mar. Os sedimentos carreados pelos rios Ururaí, Macabu e canal de Tocos seriam transportados pelas correntes até o início do canal da Flecha e ali removidos por uma draga.
Legenda: A- Serra do Mar (Imbé) como divisor de águas; 
1- rio Paraíba do Sul; 2a- rio Imbé; 2b- lagoa de Cima; 
2c- rio Ururaí; 2d- lagoa Feia; 2e rio Iguaçu; traço vermelho: 
vala do Furado; traço verde: canal de Jagoroaba; traços em marrom (superior): 
parte baixa do rio Ururaí canalizado; (inferior): canal da Flecha. No centro da lagoa (central): ligação submersa rio Ururaí – canal da Flecha; (direita): canal de Tocos e sua ligação com o canal central; (esquerda): canal ligando o rio Macabu ao canal central

Os canais central e laterais foram abertos, mas esbarraram numa concreção de arenito e de outros materiais no início do canal da Flecha, denominada pelos pescadores de Durinho da Valeta. Houve levantes dos pescadores entre 1978 e 1981 por entenderem eles que o Durinho garantia a água retida na lagoa. Segundo eles, o rio submerso a esvaziaria criando, de fato, um longo rio Ururaí. O projeto foi abandonado e os canais submersos foram assoreados. 
Rio Ururaí canalizado na entrada da lagoa Feia
Havia ainda a intenção de canalizar o rio Ururaí da sua nascente, na lagoa de Cima, à localidade de mesmo nome. Para estabilizar o nível d’água da lagoa de Cima, seria erguida uma represa que permitiria o escoamento de água apenas quando a lagoa enchesse e ultrapassasse a barragem. Tanto a canalização quanto o barramento não foram feitos. Assim, o sistema permaneceu nos seguintes moldes: rio Imbé (ao lado dele, corre o rio Urubu) – lagoa de Cima – rio Ururaí com traçado natural – rio Ururaí canalizado – lagoa Feia – canal da Flecha. O antigo rio Iguaçu foi cortado por este último canal. A parte inicial dele corre da lagoa Feia até o canal da Flecha, onde existe uma comporta para regular seu regime, mas sobretudo impedir a invasão da língua salina. Do lado de Campos, ele começa no canal da Flecha (no local que recebeu o nome de Buraco do Ministro) e segue até a lagoa do Lagamar. Desta lagoa ao banhado da Boa Vista, o estirão do rio está interrompido em vários pontos por barragens de terra. Do banhado ao mar, ele não sofre interrupções, exceto na barra, que se fecha por força do mar e que é aberta mecanicamente por pescadores de tempos em tempos.     

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