quarta-feira, 6 de setembro de 2017

A importância dos manguezais

Ilustração
Por Arthur Soffiati

Explica a paleontologia que o reino vegetal teve sua origem no mar, há 500 milhões de anos, a partir de algas. Aos poucos, as plantas foram conquistando o meio terrestre e se adaptando a ele. Uma mudança fundamental foi o desenvolvimento de vasos condutores de seiva. Poucos vegetais não contam com vasos para transportar seiva, como é o caso dos musgos.

O grupo vegetal mais desenvolvido é representado pelas angiospermas, chamadas plantas completas, pois contam com raízes, caule, folhas, flores, frutos e sementes. O intelectual transdisciplinar Edgar Morin diz que as plantas têm inteligência, ainda que não disponham de sistema nervoso e raciocínio. Com essa inteligência, elas foram criando mecanismos de adaptação, de defesa, de sobrevivência e de propagação.

Em torno de 60 milhões de anos, no atual Sudeste Asiático, as plantas angiospermas fizeram uma experiência: voltar a viver em ambiente mais úmido e salino que os encontrados em meio terrestre. Ao molhar novamente os pés na praia e fixá-los num ambiente que haviam abandonado, o reino vegetal inventou as diversas espécies que denominamos de mangue. 

O retorno ao mar, agora na condição de angiosperma, encontrava sérios problemas de adaptação. Os mais dramáticos eram 1) lidar com excesso de água, 2) lidar com excesso de sal e 3) carência de ar no solo. As espécies de mangue encontraram solução para tais problemas, mas não conseguiram se adaptar a climas temperados e frios. Assim, elas se limitaram ao ambiente costeiro entre os Trópicos de Câncer e Capricórnio, pouco acima de um e pouco abaixo de outro. Elas promoveram também uma globalização antes do aparecimento do ser humano como espécie e antes do atual processo de globalização, que começou na Europa no século XV.
Origem e dispersão planetária dos manguezais segundo Chapman. O ponto assinalado com a letra M indica a região em que se originaram as plantas exclusivas deste ecossistema. Fonte: SCHAEFFER-NOVELLI, Yara. Manguezal: ecossistema entre a terra e o mar. São Paulo: Caribbean Ecological Research, 1995.

Em resumo, só existem manguezais na zona costeira e intertropical. Para diluir a salinidade, as espécies de mangue se instalaram, preferencialmente, na foz de rios junto ao mar, pois as águas fluviais diluem o sal, criando água salobra. Este ambiente nem doce nem muito salino é chamado de estuário. O manguezal, contudo, pode também se desenvolver em lagoas costeiras (chamadas de lagunas) e em praias onde a salinidade e a força do mar são baixas.

Para lidar com o excesso de sal, as espécies de mangue criaram três mecanismos: barrar a entrada dele no organismo da planta, diluí-lo no interior da planta e expelir o excedente por glândulas existentes nas folhas. O suporte terrestre para as árvores de mangue, chamado de substrato, normalmente é formado por partículas muito finas. Com a água, ele se torna muito compactado e pobre de ar. Além do mais, a decomposição da matéria orgânica produz gás metano e torna o ambiente muito pouco oxigenado.

Para respirar, as plantas de mangue, ao lado das raízes alimentadoras, que existem em todas as angiospermas, desenvolveram também raízes respiratórias, que, em vez de se dirigirem para o fundo da terra, vêm à tona, em busca do ar. Estas raízes chamam-se pneumatóforos. Na ponta delas, existem pequenos poros, denominados lenticelas, que absorvem o ar quando a maré baixa e se fecham quando ela sobe. No caso do mangue vermelho, o caule se ramifica a partir do caule central. As lenticelas se desenvolvem nesse caule ramificado. As raízes respiratórias podem ser comparadas ao tubo de um mergulhador: a haste é o pneumatóforo e o furo por onde entra o ar é a lenticela.
Representação esquemática do sistema radicular de “Avicennia” e “Laguncularia”, segundo Schaeffer-Novelli, op. cit.
Representação esquemática do sistema radicular de “Rhizophora”, segundo Schaeffer-Novelli, op. cit.

Quanto à reprodução, as plantas exclusivas de manguezal se propagam por meio de sementes que ficam presas na árvore mãe até estarem prontas para a germinação, tão logo caiam no chão. Os cientistas as denominam de propágulos. Se caem na água, elas apresentam a faculdade de permanecer muito tempo com capacidade germinativa. Os propágulos são sementes apropriadas para navegar. Foi assim que os manguezais conquistaram o mundo intertropical a partir do Sudeste Asiático, seu lugar de origem.
Propágulo do mangue vermelho segundo Guilherme Piso, naturalista holandês do século XVII

O manguezal se constitui em ambiente altamente rico. As folhas, antes mesmo de caírem no chão, já estão sofrendo ataque de fungos. Bactérias, fungos e caranguejos, entre outros organismos, incumbem-se de triturar as folhas para que elas se tornem alimento de animais residentes no manguezal e para que, transportadas pelas marés, alimentem animais do mar.

Em época de reprodução, várias espécies animais dos rios e do mar entram nos canais dos manguezais e ali acasalam e procriam. O manguezal, além de fabricar alimento, oferece abrigo para a reprodução e para o crescimento dos filhotes. Ele também protege a costa da erosão. Nas costas colonizadas por manguezais, existe mais peixe e a pesca é mais farta que em lugares sem manguezal.

Embora existam cerca de 50 espécies exclusivas de manguezal em toda zona intertropical, na costa atlântica da América, apenas seis são encontradas. Dessas seis, só quatro existem no Sudeste do Brasil: mangue branco (“Laguncularia racemosa”), mangue vermelho (“Rhizophora mangle”) e mangue preto (“Avicennia schaueriana” e “Avicennia germinans”). 

Existe ainda uma espécie, o mangue de botão (“Conocrpus erectus”), que não é exclusiva de manguezal, mas pode se associar a ele com facilidade. É o que ocorre num dos manguezais de Campos dos Goytacazes, assunto do próximo artigo.


Texto e Fotos Arthur Soffiati

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