Ticker

6/recent/ticker-posts

Farol de São Thomé: águas e terras

Por Arthur Soffiati

Há cinco mil anos, começavam a se formar as grandes civilizações mesopotâmica, no curso baixo dos rios Tigre e Eufrates, e a civilização egípcia, no vale do rio Nilo. Nesse distante tempo, o território do Farol de São Thomé e toda a planície campista ainda não existiam. Tudo era mar até perto da lagoa de Cima.

Antes do mar, havia um continente argiloso como o do sul do Espírito Santo e da praia da Lagoa Doce, em São Francisco de Itabapoana. Eram as barreiras. Do rio Itapemirim ao rio Macaé, essas barreiras formavam um bloco que avançava mais no mar do que atualmente. Entre o rio Macaé e a futura Barra do Furado, assim como na margem esquerda da foz do rio Itabapoana, formaram-se duas restingas há 120 mil anos.

O aquecimento natural do planeta a partir de 12 mil anos passados derreteu as imensas geleiras então existentes e elevou o nível do mar. Quem hoje assiste à erosão da praia em Atafona não imagina que o mar invadiu o antigo continente de barreiras e abriu uma grande brecha nele, separando-o em dois: um do rio Itabapoana ao rio Guaxindiba e outro no atual município de Quissamã.

 Antes de 12 mil anos

Tendo atingido o máximo avanço em 5.100 anos antes do presente, o mar começou a descer. Então, o rio Paraíba do Sul começou a formar a Planície Goitacá com sedimentos trazidos da zona serrana. O mar também trabalhou na construção da planície. Na parte sul dela, as correntes marinhas são muito fortes. Foi nesse ponto, entre a futura Barra do Furado e o Cabo de São Thomé, que a força do rio Paraíba do Sul e as correntes marinhas se enfrentaram. As águas do rio empurravam a força do mar. Porém, o mar resistiu. O rio foi se deslocando para o norte até fixar sua foz na atual Atafona.

A partir de Itereré, o rio Paraíba do Sul e o mar construíram um continente argiloso na parte interior e arenoso na parte exterior. Na parte interior, predomina a argila. Na parte exterior, predomina a areia. Trata-se de uma planície fluviomarinha. Alberto Ribeiro Lamego entendeu a formação de toda a planície como uma luta entre o rio e o mar. O resultado dessa luta é o continente que hoje conhecemos. Os geólogos Louis Martin, Kenitiro Suguiu, José M. L. Dominguez e Jean-Marie Flexor, no livro “Geologia do Quaternário costeiro do litoral norte do Rio de Janeiro e do Espírito Santo” (Belo Horizonte: CPRM, 1997), mostram essa luta, mas não a traduzem em termos literários como Lamego.

Uma das caraterísticas do rio Paraíba do Sul, na planície, é apresentar a margem esquerda mais alta que o nível médio das águas fluviais e a margem direita mais baixa que esse nível. Assim, pela esquerda, existem afluentes e, pela direita, defluentes. Vale dizer que, na margem esquerda, o Paraíba do Sul recebe águas de outros rios, como o Muriaé e o córrego da Cataia. Na margem direita, as águas de cheias transbordam e não voltam mais ao rio quando seu nível baixa.

Pela margem direita, as águas de cheia descem por defluentes como os de Cacumanga, Cula e rio Água Preta. O Cula corria em direção ao Farol de São Thomé. Era muito volumoso. A briga entre ele e o mar trouxe como resultado o Cabo de São Thomé. Quem olha a estreita faixa de areia de 28 quilômetros atualmente pode perceber que, atrás dela, ainda há vestígios de toda essa água doce aprisionada pela restinga. De um lado, o mar está no nível 0. 

No interior, o nível alcança um pouco mais, embora seja muito baixo. Entre o mar e o continente, ergue-se o cordão de areia em que se situa a localidade do Farol de São Thomé. Esse cordão impede que água do mar invada a planície. A água doce acumulada atrás do Farol de São Thomé encontrou uma saída para o mar: o rio Iguaçu.


Postar um comentário

0 Comentários