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    Mangue enigma


    Por Arthur Soffiati

    Mais uma vez, estou diante de um tufo de manguezal como um burro diante de um palacete. Depois de muito matutar, levantei a tese de que um rio de nome Iguaçu, correndo junto a costa entre o sul da lagoa Feia e a barra do Açu, tinha uma declividade mínima, o que permitia às marés chegarem até quase a sua nascente, na dulcíssima lagoa Feia. Assim, o manguezal seria a vegetação dominante em quase toda a extensão do rio. O tufo diante de mim seria o limite de intrusão das marés. O estuário do rio, ponto em que a água doce se mistura com a água salgada, seria ali.

    Contexto do manguezal de São Miguel

    Depois, mudei minha concepção porque, em 1688, um grande proprietário de terra chamado João de Barcelos Machado, percebendo que o rio corria junto à costa, fez um rasgo nele para escoar a água doce do rio com mais rapidez para o mar, sobretudo na estação das cheias. Assim, propágulos (sementes) das espécies de mangue teriam entrado pelo rasgo. Havia, um problema: assim que a força da água doce se esgotava, o mar fechava o rasgo. Por ele, só saía água doce. As correntes marinhas fechavam logo o rasgo, não permitindo a penetração superficial da água salgada e, por consequência, dos propágulos de mangue.

    Manguezal de São Miguel verde 

    O rio Iguaçu foi cortado em dois quando o extinto Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS) ligou a lagoa Feia diretamente ao mar pelo canal da Flecha, aberto na década de 1940. As duas partes do rio, na conexão com o canal, foram fechadas com comportas para impedir que a língua salina penetrasse em ambas. No trecho do antigo rio entre o canal da Flecha e o Lagamar, o fechamento foi permanente. Essa interrupção gerou protestos dos pescadores na época. O ponto ficou conhecido como Buraco do Ministro. O conflito foi esquecido. 

    Manguezal de São Miguel seco, vendo-se ao fundo a capela de São Miguel

    No trecho entre a lagoa Feia e o canal da Flecha, a água do mar foi barrada por comportas. Esse estirão do rio passou a ser conhecido como rio do Espinho. O conjunto de comportas foi batizado de Furadinho. Nas eventuais aberturas das comportas, propágulos de mangue poderiam ter entrado no trecho inicial do rio Iguaçu ou agora do Espinho e se fixado no ponto onde ergueu-se o pequenino manguezal, denominado por mim de São Miguel por ter se erguido a seu lado a capela em louvor de São Miguel, um dos mais antigos pontos da colonização contínua da região pelos Sete Capitães. Mas surgiu um novo problema: ambos os trechos do antigo rio Iguaçu não recebiam mais a influência cotidiana das marés. Apenas em casos eventuais, a língua salina podia alcançar o manguezal. Além do mais, as comportas só são abertas com água doce acumulada no rio do Espinho, a fim de que extravasem para o mar. Esse fluxo, impede a chegada de sementes até a capela de São Miguel. 

    Exemplar sadio de siribeira (“Avicennia germinans”) 

    O tufo deve ser o que restou de um bosque maior de manguezal, pois ele foi cortado pela rodovia estadual RJ-196, resultando da obra dois fragmentos de mangue: um ralo, no lado interior da estrada, e outro mais denso, no lado marítimo da rodovia. A circulação sob a rodovia se faz por bueiros subdimensionados.

    Raízes respiradoras (pneumatóforos) de siribeira

    Por fim, a hipótese que agora levanto: o rio Iguaçu, da nascente à comporta no canal da Flecha, transborda pela margem direita em tempo de cheias. A água doce transbordada não volta mais ao rio e cai numa baixada onde crescem plantas de mangue e onde se concentra o tufo do manguezal de São Miguel. Essa água de transbordamento é doce, mas se torna salobra pela água salgada que verte do lençol freático. Mesmo sem influência das marés, forma-se uma espécie de estuário com a água doce que transborda do rio pela superfície, encontrando a água salgada que verte do subsolo. Com a introdução natural de propágulos de mangue, forma-se um manguezal atípico que exemplifica, mais uma vez, a grande plasticidade criativa do manguezal. Apenas o mangue branco (“Laguncularia racemosa”) e a siribeira (“Avicennia germinans”) estão presentes no manguezal. O mangue vermelho (“Rhizophora mangue”) não está representado no pequeno manguezal muito provavelmente pela elevada salinidade da água, fator limitante para esta espécie. O tufo de mangue já aparentou morte em vários momentos, mas tem retornado viçoso para alegrar os estudiosos e admiradores. Creio que eu seja o único a me alegrar com sua periódica ressurreição. 

    Poluição do manguezal por resíduos sólidos

    Examinei também a ligação da lagoa de São Miguel com o mar por um longo canal que corre paralelo à praia fazendo meandros. Levantei a hipótese de que a lagoa recebe influência das marés. Ou seja, as marés altas avançariam por esse canal e alcançariam a lagoa e se misturariam com a água doce transbordada do rio Iguaçu. Examinei minuciosamente esse canal no Google Earth e notei que sua possível barra no mar fica muito distante da lagoa. Seria difícil as marés alcançarem o ponto em que fica o manguezal. Além do mais, o canal sofreu vários barramentos ao longo do seu curso. As marés não poderiam alcançar a lagoa por essa via. Mas preciso alcançar a possível barra desse canal, assim como acompanhar seu curso para verificar se existe alguma ou algumas plantas de mangue. 

    Estrada (RJ-196) cortando a área do manguezal de São Miguel

    O enigma permanece para mim, que venho dedicando mais de quarenta anos a decifrar a região norte-noroeste fluminense. Sempre que julgo ter aprendido alguma coisa, aparece um dado novo que derruba grande parte do meu conhecimento. Então, começo novamente. E sempre sozinho, pois nenhum outro estudioso está interessado nas sutilizas da natureza. Os historiadores desprezam meu interesse pelas relações da sociedade com a natureza. Os biólogos não enxergam importância nesses detalhes.

    Manilhas sob a rodovia


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