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    Barra do Furado pelo olhar de uma escritora do século XIX

    Por Arthur Soffiati

    Se buscarmos a Barra do Furado no roteiro do navegador e cartógrafo Luís Teixeira em sua expedição do Rio Grande do Norte ao estreito de Magalhães, no século XVI, no Roteiro dos Sete Capitães, do século XVII, na representação de André Martins da Palma, de 1657 ou ainda na “Vida do Padre João de Almeida”, escrita por Simão de Vasconcellos e publicada em 1658, não a encontraremos. E por uma razão muito simples: a Barra do Furado ainda não existia. Ela foi aberta em 1688 pelo capitão José de Barcelos Machado. Originalmente, o Furado era apenas uma vala ligando o famoso rio Iguaçu ao mar e só se mantinha aberta durante a estação das chuvas, quando a água doce se acumulava e forçava a barragem de areia, alcançando o mar com a ajuda de escravos. Cessada essa força vinda do continente, o mar a fechava novamente. A vala foi aberta para acelerar o escoamento de água doce excedente para o mar e liberar terra para a agricultura e para a pecuária.

    Barra era usada no sentido de barra de rio, ou seja, foz de rio. E esse rio não era exatamente um rio, mas uma sangria feita no rio Iguaçu até o mar. Ela se tornou famosa daí em diante. Em 1747, ela já figura num mapa de autoria anônima. Pode-se ver a lagoa Feia chegando ao mar por um canal que pode ser a vala do Furado simplificada, saindo dela o rio Iguaçu, cuja foz está assinalada logo acima do cabo de São Tomé. Ao norte do rio Iguaçu (no mapa, a leste), figura o rio Paraíba do Sul.
    Mapa anônimo de 1747. Legenda: 1- Barra do Furado, 2- foz do rio Iguaçu, 3- Foz do rio Paraíba do Sul (fonte: Alberto Ribeiro Lamego: “O homem e o brejo” - 1945

    Vinte anos depois, o famoso mapa do sargento-mor Manoel Vieira Leão, assinala a Barra do Furado com o nome que ganhou, bem como um pouco da complexidade do sistema hídrico do rio Iguaçu, ao sul da lagoa Feia.
    Manoel Vieira Leão – 1767: Barras do Furado e do rio Iguaçu
    Dez anos depois da divulgação da carta de Manoel Vieira Leão, e provavelmente a tomando como base cartográfica, Francisco João Roscio produziu um mapa da Capitania do Rio de Janeiro também assinalando a famosa Barra do Furado, o rio Iguaçu e o rio Paraíba do Sul.
    Barra do Furado na Carta Corográfica da Capitania do Rio de Janeiro, levantada por Francisco João Roscio em 1777
    A planície Goitacá será coroada, no século XVIII, pelo monumental trabalho de Manoel Martins do Couto Reis, tanto no plano da cartografia como no de informações escritas. Nunca antes o Distrito dos Campos dos Goitacás fora tão minuciosamente examinado. Couto Reis teve a oportunidade de descrever o sul da lagoa Feia nos seus mínimos detalhes. A Barra do Furado mereceu dele especial atenção. Já existia a Capitania do Rio de Janeiro, como assinalam os mapas anteriores, sendo Campos o principal núcleo urbano do Distrito, uma das divisões administrativas da Capitania, em parte do Rio de Janeiro, em parte do Espírito Santo. Embora o distrito fizesse parte da Capitania do Rio de Janeiro, a justiça foi administrada pela Capitania do Espírito Santo até 1832, vésperas da elevação de Campos à condição de cidade. 
    Carta de Manoel Martins do Couto Reis, 1785
    No início do século XIX, antes da independência política do Brasil, passou por Barra do Furado o príncipe naturalista alemão Maximiliano de Wied-Neuwied, em 1815. Ele teceu considerações sobre a localidade e deixou alguns desenhos de pescadores e da travessia de animais num dos formadores do rio Iguaçu. Três anos depois, seguiu-lhe os passos o botânico francês Auguste de Saint-Hilaire, também legando apontamentos sobre o local.


    Em 1817, foi lançada no Brasil “Corografia Brasílica”, obra monumental de Manuel Aires de Casal. Além de divulgar a carta de Pero Vaz de Caminha pela primeira vez, Casal descreveu o escoamento da lagoa Feia e a Barra do Furado em poucas e precisas palavras. Em 1819, o escoadouro volta a ser descrito por José Carneiro da Silva, assim como, na década de 1820, por monsenhor Pizarro e Araujo.

    Contamos ainda com a minuciosa explicação do major Henrique Luiz de Niemeyer Bellegarde, em 1837. Difícil algum cronista e historiador do século XIX não ter se referido a ela. Barra do Furado mereceu também o romance “Mercedes”, escrito por Amelia Gomes de Azevedo e publicado em 1894. Dela, já foi lançada a coletânea de textos com o título de “Rumorejos do Monte Himalaya”. 
    Capa do romance “Mercedes”, de Amelia Gomes de Azevedo
    Amelia estudou no Rio de Janeiro e redigiu artigos em francês que foram premiados no exterior. Em 1894, ela publicou o romance “Mercedes”, do qual selecionamos algumas passagens, atualizando a grafia: “Davam-se estes fatos no lugar denominado Furado, município de Campos. Naquele tempo ainda era difícil o meio de locomoção para lá; porque, a não serem cavalos, só tinham o recurso de pesados carros, puxados lentamente por bois, em caminhos quase intransitáveis nas épocas das grandes chuvas. Aqueles vargedos imensos tornavam-se alagados, e, quando começava o sol, encontravam-se aqui e ali vastas lagoas de água esverdeada, por cima das quais esvoaçavam bandos de borboletas brancas, que fugiam ao aproximar-se algum viandante. É justamente em ocasiões semelhantes que se dão casos de epidemias, que vão ceifando a esmo os habitantes de localidades baixas e úmidas, principalmente aquelas onde a pobreza é maior”.

    Campos era a sede de um município desde 1835, portanto um com estatuto de cidade. Amelia já menciona um aglomerado humano junto à Barra do Furado, localidade hoje vila de Quissamã, na margem direita do canal da Flecha, aberto entre 1942 e 1949 pelo Departamento Nacional de Obras e Saneamento. Ele substitui a vala do Furado. 

    “Em um povoado pequeno, porém de movimento relativamente grande, preparavam festejos para o dia de Reis. Era a véspera. À margem da principal estrada do lugar, deparava-se com uma casa de construção antiga, mas limpa e enfeitada para a ocasião. Na fachada, onde algumas aberturas indiscretas deixavam ver a madeira, lia-se em letras grandes, de cor vistosa: – Ivo & C.  Um sortimento de tudo o que o negociante do interior pode vender com bom lucro acumulava-se nas prateleiras, em baixo do balcão, ao pé das portas, escancaradas até alta noite.  Ao lado de alguma fazenda com a denominação de seda, porém de duvidosa legitimidade, estava a garrafa de saborosa cerveja, e a não menos querida com parati. As perfumarias confundiam suas exalações agradáveis com as emanações rançosas do toucinho vindo do centro de Minas”. 

    Mas os ambientes criados por Amelia são descritos de maneira muito vaga. Em qualquer ponto da planície, principalmente nas proximidades da zona costeira, o acesso era difícil. Não havia estradas pavimentadas. No máximo, caminhos de terra por onde apenas cavalos e carros tracionados por bois podiam circular, principalmente em tempos de chuva, quando até canoas eram usadas. A descrição de Amelia vale para o Açu, Quixaba, praia do Farol, Santo Amaro e Furado. Normalmente, as casas eram construídas com paredes de barro sobre trançado de bambu e os telhados eram coberturas de taboa seca. Daí esses povoados serem chamados de cidade de palha.

    Como elas se erguiam em locais de difícil acesso, sobretudo em tempos de chuva, era comum existirem armazéns que vendiam uma variedade muito grande de artigos. Ainda conheci alguns deles, vendendo desde alfinete a selas para cavalos, de sandálias a roupas, de balas a gêneros alimentícios não perecíveis. A especialização do comércio decretou o fim desses armazéns.

    A geografia de Amelia é formada pelo triângulo Furado-São Gonçalo-Campos, mas de forma confusa. São Gonçalo é o antigo nome de Goitacazes. Era a sede de um distrito de Campos e que se ergueu distante do rio Paraíba do Sul. Mas, no romance, parece que ele está ao lado da localidade. No entanto, existe uma observação condizente com a realidade ambiental. Um personagem, ao cruzar o Paraíba do Sul para a margem esquerda, encontra um rapaz que cortava lenha para fornecê-la à ferrovia. De fato, os terrenos de tabuleiros da margem esquerda eram revestidos de extensas florestas que abasteceram não apenas as usinas, mas as ferroviais que cruzavam Campos. 

    Amelia estudou no Rio de Janeiro. No século XIX, a viagem da zona serrana da região, onde ficava a fazenda Monte Himalaia, residência de sua família, era feita até Campos a cavalo. Depois, em vapores de médio calado, descia-se o Paraíba do Sul até São João da Barra, onde, já no mar, embarcava-se em navio e navegava-se para o Rio de Janeiro. Na volta, o caminho era o mesmo. No romance, Amelia anuncia uma viagem a São João da Barra e acaba em São Gonçalo. Pelo menos Campos e São João da Barra ela conhecia. Mas sua descrição é confusa.    

    Se hoje é possível chegar a Barra do Furado de automóvel e de ônibus, tanto partindo de Campos quanto de Quissamã, no século XIX, como escreve Amelia, a localidade só era acessível a pé, a cavalo ou a carro de boi, meios de transporte usados por Wied-Neuwied e Saint-Hilaire. O carro de boi generalizou-se como meio de transporte para localidades costeiras do norte fluminense. Maria Rita da Silva Lubatti e Jorge Luiz Gomes Monteiro relatam que a praia do Açu, uma dessas localidades, era procurada por moradores na zona rural para veraneio. Eles transportavam todo o necessário em carros de boi.

    A autora de “Mercedes” partilha a concepção de sua época, segundo a qual o meio natural estimula ou desestimula o “progresso”. Ela escreve que as epidemias resultam de um ambiente adverso e que grassam com a vida ociosa do pobre: “É justamente em ocasiões semelhantes que se dão casos de epidemias, que vão ceifando a esmo os habitantes de localidades baixas e úmidas, principalmente aquelas onde a pobreza é maior”.

    Ela se pergunta se “...a nossa invejada riqueza não será um dos fatores dessa indolência? Os pobres (...) Entregam-se à pesca; e o rio abundante não nega o sustento necessário a famílias inteiras, as quais, à noite, esquadram suas tarrafas, e durante o dia deixam-se embalar em doce ócio, saboreando o encanto de prolongado sono.”. Em meio à fartura, grassa a pobreza, derivada do ócio, e a debilidade orgânica, que favorece a doença. O Alemão Robert Avé-Lalement via com maus olhos a ociosidade das populações costeiras da Bahia, vivendo em meio a um mundo farto de peixes, caranguejos e cocos que não estimulava a construção de uma civilização. Enfatiza Amelia: “O organismo enfraquecido, não encontrando em si forças para a resistência, deixa-se prostrar pela enfermidade, e o resultado é a morte, consequência certa da indolência de muitos dos nosso. A palidez, a falta de graça em seus movimentos, tudo revela o desanimo, o torpor de pessoas que se poderiam prestar com utilidade, se a ambição as estimulasse, ou se a necessidade as impelisse a lutarem pela vida com mais energia (...) Parece que Deus tem comiseração delas, e lhes oferece meios para de algum modo lhes evitar tormentos (...) Se um dia têm fome, no outro já encontram alimento; se hoje sentem o frio a açoitar-lhes os membros, ali está a fogueira, ao pé da qual se aquecem, adormecendo com benéfico calor”.

    Antes da ação sistemática do Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS), que operou entre 1940 e 1990, a baixada se transformava num pantanal na estação das cheias. Mesmo abrindo-se a barra da vala do Furado, as lagoas transbordavam, encobriam os mínimos divisores de água e se ligavam. Sob efeito do sol, as plantas aquáticas se alastravam e tomavam a superfície das lagoas, como ainda hoje acontece. Até de maneira mais acentuada pela presença de esgoto orgânico.

    Então, aparece o motivo que justificou a massiva drenagem da região: as epidemias. Acreditava-se até as primeiras décadas do século XX que as doenças eram provocadas pelos vapores mefíticos oriundos da decomposição de matéria orgânica. Lagoa, para o senso comum e mesmo para as autoridades médicas, era sinônimo de foco de endemias. Elas deviam ser drenadas. Na verdade, eram mosquitos os vetores de doenças. O combate às endemias e a proteção dos pobres foi o grande motivo alegado para a drenagem das lagoas, chamada então de saneamento. A grande beneficiária, no caso da baixada campista, foi a agroindústria sucroalcooleira e a pecuária.   

    Essa parte do romance se passa antes de 1888, com algumas menções pontuais a uso de canoa para atravessar o rio Paraíba do Sul e grandes áreas alagadas por chuvas copiosas. Encantadoras, mas perigosas. Depois a trama se volta mais para a questão do fim da escravidão, da crítica à república e dos dramas pessoais. Levanto a hipótese segundo a qual Amelia colheu informações de outrem sore a baixada para escrever “Mercedes”. Sua contribuição ao conhecimento do ambiente é indireta e supérflua.

    Sobre a referência ao livro, ele foi publicado no Rio de Janeiro pela "oficina de obras do Jornal do Brasil" em 1896. Essas são as únicas informações constantes na obra. 

    Para ler mais

    • AVÉ-LALEMENT, Robert. Viagem pelo norte do Brasil no ano de 1859, 2 vols. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1961.
    • AZEVEDO, Amelia Gomes de. Mercedes. Rio de Janeiro: Oficina de Obras do Jornal do Brasil, 1896.
    • AZEVEDO, Amelia Gomes de. Rumorejos do Monte Himalaya. 5º volume da série Memórias Fluminenses. Campos dos Goytacazes: Essentia, 2019.
    • BELLEGARDE, Henrique Luiz de Niemeyer. Relatório da 4ª Seção de Obras Públicas da Província do Rio de Janeiro apresentado à respectiva Diretoria em agosto de 1837. Rio de Janeiro: Imprensa Americana de I. F. da Costa, 1837.
    • CASAL, Manuel Aires de. Corografia brasílica. São Paulo: Edusp, 1976.
    • COUTO REIS, Manoel Martins do. Manuscritos de Manoel Martins do Couto Reis – 1785: Descrição geográfica, política e cronográfica do Distrito dos Campos Goitacazes. Campos dos Goytacazes: Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima; Rio de Janeiro: Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, 2011.
    • GABRIEL, Adelmo Henrique Daumas e LUZ, Margareth da (Orgs.); FREITAS, Carlos Roberto B.; SANTOS, Fabiano Vilaça dos; KNAUS, Paulo; SOFFIATI, Arthur (notas explicativas) e GOMES, Marcelo Abreu. Roteiro dos Sete Capitães. Macaé: Funemac Livros, 2012.
    • LUBATTI, Maria Rita da Silva. O folclore na vivência atual de Açu, Marreca e Quixaba (Campos, RJ). São Paulo: Editorial Livramento, 1979.
    • MONTEIRO, Jorge Luiz Gomes. Acesso à terra urbana de veraneio: análise da produção do espaço na praia do Açu-RJ. Brasília: Universidade de Brasília, 1996 (dissertação de mestrado).
    • PALMA, André Martins da. Representação sobre os meios de promover a povoação e desenvolvimento dos Campos dos Goitacases em 1657. Revista trimestral do Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico do Brasil tomo XLVII, parte 1. Rio de Janeiro: Laemmert, 1884.
    • PIZARRO E ARAUJO, José de Souza Azevedo. Memórias históricas do Rio de Janeiro, 3º vol., 2ª ed. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1945.
    • SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem pelo distrito dos diamantes e litoral do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia, São Paulo: Edusp, 1974.
    • SILVA, José Carneiro da. Memória topográfica e histórica sobre os Campos dos Goytacazes com uma notícia breve de suas produções e comércio oferecida ao muito alto e muito poderoso Rei D. João VI por um natural do país, 3ª edição. Campos dos Goytacazes, Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima, 2010.
    • TEIXEIRA, Luís. Roteiro de todos os sinais, conhecimentos, fundos, alturas e derrotas que há na costa do Brasil desde o cabo de Santo Agostinho até o estreito de Fernão de Magalhães. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1968.
    • VASCONCELLOS, Simão de. Vida do Padre João de Almeida. Lisboa, 1658.
    • WIED-NEUWIED, Maximiliano. Viagem ao Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia/São Paulo: EDUSP, 1989.

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