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    Aquela curva aberta

    Por Arthur Soffiati

    Faz muitos anos que eu a vi pela primeira vez. Não foi no terreno, mas numa imagem de satélite. Parecia o seio de uma mulher sem o mamilo. Eu mesmo brincava com as pessoas ao expor a imagem, alertando que não se tratava de uma mamografia. Depois, muitas vezes a vi em mapas gerais e temáticos. A grande curva estava lá. O ponto mais proeminente é o cabo de São Tomé, a ponta do seio sem bico. Na verdade, o bico foi encoberto pelo mar. Ele sofreu desgaste e ficou meio dissolvido sob o mar. É o que se chama de parcel em linguagem técnica. Ele está supostamente no meio da curva. O litoral ali faz uma inflexão para oeste. A linha de costa orienta-se em direção ao sul e, de repente, volta-se para oeste formando o cabo.
    Imagem aérea do cabo de São Thomé

    Vários autores dizem que ele foi atingido pela expedição de 1501, na qual estava Américo Vespúcio. A curva foi batizada com o nome de São Thomé por ter sido atingida no dia dedicado a ele: 21 de dezembro. Como muitos santos passaram a ser festejados nesse dia, tiraram São Thomé e o jogaram no dia 3 de julho. Conta uma lenda que São Thomé andou por aqui. Ele foi condenado a converter pessoas ao cristianismo em terras do oriente por duvidar da ressurreição de Jesus. Nos primórdios do cristianismo, oriente era tudo o que ficava distante, inclusive o continente americano, que ainda não era conhecido.

    Quando os europeus chegaram por aqui, confundiram a lenda indígena de Sumé com São Thomé. Sim, ele chegou aqui não se sabe como. Pregou o cristianismo aos gentios. Ninguém lhe deu atenção. Contam que, nos seus acessos de fúria, ele batia os pés e seu cajado no chão com tal indignação e força que deixava pegadas e marcas da bengala nas pedras. Por aqui, não havia pedras. Desgostoso, São Thomé saiu do continente e andou sobre o mar exatamente pelo cabo que receberá seu nome futuramente. Ele sumiu. Nunca mais foi visto. Os povos americanos decepcionaram o santo ao não lhe darem ouvidos.

    E a curva continuou lá, majestosa. Não é propriamente um cabo ou uma ponta. Quem a atravessa a pé não a nota. Apenas do alto ela é vista. Estudos recentes de geologia mostram como se formou a planície da qual ela é a proeminência mais destacada. Podemos tomar a foz do rio Paraíba do Sul e a barra do Furado, na foz do canal Flecha, como seus limites. A curva aberta, aquela coisa certa aparecerá em qualquer mapa ou imagem aérea. Se começarmos na foz do Paraíba e terminarmos na lagoa de Carapebus, lá estará a curva.

    Suponho que essa proeminência tenha sido formada pela força de um braço do Paraíba do Sul que começava na altura de onde se ergueria Campos alguns milênios mais tarde e que foi registrada pelos antigos com o nome de Grande Canal ou Córrego do Cula. Ainda hoje, examinando um mapa geológico, é possível ver os rastros desse braço. Ele deve ter travado uma luta hercúlea com o mar e ter sido derrotado. O braço do rio avançou no mar, mas acabou retido por ele. Assim, surgiu uma extensão da costa que virou cabo. O Cula foi contido por um paredão de areia e formou o majestoso banhado da Boa Vista, que é, ao mesmo tempo, o engordamento do rio Iguaçu. No final, discretamente, o Cula alcançou o mar pela barra do Canzoza, nome que todo mundo esqueceu. 

    Podemos ainda traçar uma linha reta da foz do rio Itapemirim à foz do rio Macaé que lá estará a curva. Impávida. Os mapas a mostram, mas os pés a escondem. Parodiando Caetano Veloso, em vez do tempo, é melhor dizer que o espaço a esconde. O cabo de São Thomé é inapreensível aos olhos que buscam enxergá-lo no local. Só mesmo do alto ou do mar, ele pode ser percebido.
    Ecorregião de São Thomé

    No século XVI, o grande navegador e cartógrafo Luís Teixeira singrou as costas da América do Sul, do Rio Grande do Norte ao estreito de Magalhães. Ele deixou um roteiro descrevendo os acidentes do litoral. Do cabo de São Thomé ao rio Macaé, anotou ele, existe uma longa linha livre. Se ele assinalou a longa costa livre, deve ter notado que, antes dela, existem desembocaduras de rios. Mas não há, no roteiro, qualquer registro do rio Paraíba do Sul, de Gruçaí, Iquipari e Iguaçu. A Barra Velha e a Barra do Furado ainda não existiam. Trata-se, por suposição, de um registro implícito.  

    Por várias vezes, percorri de jipe o espaço arenoso entre a margem direita do Paraíba do Sul, começando na foz, até Barra do Furado. Por duas vezes, fiz o mesmo caminho a pé. O cabo some. Não se percebe a grande curva aberta que ele faz de norte para oeste ou vice-versa. Estamos na maior restinga do Rio de Janeiro. O terreno é arenoso.

    Busco informações antigas sobre ele e não as encontro. Quem vive num lugar não se apercebe dele. São os forâneos que nos informam a respeito. Mas não há as informações que desejo porque, vindos do Sul ou do Norte, os viajantes tomavam uma estrada de terra entre o Farol de São Tomé e Campos. A parte da restinga em que fica o cabo de São Tomé está de fora do trajeto. Imagino o que Maximiliano de Wied-Neuwied ou Auguste de Saint-Hilaire escreveriam sobre essa parte da restinga. Que informações riquíssimas eles deixariam..

    Mas é a própria natureza que informa. A tese de Alberto Ribeiro Lamego está superada pela de quatro geólogos que estudaram a formação da planície. Lamego era um épico e amava a planície com todos os preconceitos reinantes no seu tempo. Os quatro geólogos são frios. Eles mostram por datação do terreno que a planície se formou nos últimos 5.100 anos antes do presente. De longe, em seus laboratórios. 

    Não quero ser técnico nesse relato. Falo do meu amor por essa curva aberta. Do Paraíba do Sul até Barra do Furado, existem seis saídas para o mar, se contarmos com o grande rio. As outras cinco são as lagoas de Gruçaí, de Iquipari, do rio Iguaçu, a Barra velha e a Barra do rio Furado, hoje transformada no canal da Flecha. Pouca gente sabe disso. Basta fazer uma pergunta de chofre para verificar o desconhecimento. Pode ser que um estudioso mais atento responda à pergunta, mas demorará um pouco. Mesmo assim, duvido que ele conheça a Barra Velha.
    Braço principal do delta do Paraíba do Sul

    A saída do Paraíba do Sul é a mais larga, embora sempre tenha sido problemática para a navegação por ser rasa. Manuel Martins do Couto Reis e Antonio Muniz de Sousa deixaram registrada essa observação. Couto Reis foi um observador apaixonado e um cartógrafo primoroso. Ele anotou num antológico mapa todos os detalhes do sul da lagoa Feia. Aqueles canais naturais, aquelas ilhas que eles formavam. Ele detalhou um mundo que nós perdemos. 

    Esse cartógrafo fantástico escreveu sobre a vala do Furado, aberta pelo capitão José de Barcelos Machado em 1688. Ele era herdeiro indireto de um dos Sete Capitães. Imagino que ele tenha se perguntado por que as águas da lagoa Feia, em tempos de cheia, vinham do Norte por uma intrincada rede de canais que se curvavam para leste, acabavam se concentrando em alguns canais, sendo o principal o rio Iguaçu, e alcançavam o mar pouco acima do cabo de São Tomé. Couto Reis visitou o final do rio Iguaçu e verificou que ele não chegava ao mar. O rio do Veiga, seu último afluente, também não. Ele disse que as águas do Veiga vertiam para o norte e para o sul movidas pelos ventos. Alguém precisa escrever um dia sobre os ventos da planície. Eles também são lindos.

    Mas voltemos à curva aberta, aquela coisa certa. Descendo a linha costeira a partir do Paraíba do Sul, chegamos à lagoa de Gruçaí. Pouco abaixo dela, corre a lagoa de Iquipari. Pelos mapas, podemos verificar que elas se ligavam ao rio Água Preta, que começava no rio Paraíba do Sul e corria para o Iguaçu. É comum haver afluentes, mas os defluentes são mais raros. O rio Água Preta era ativado quando as águas do Paraíba do Sul engrossavam com as chuvas. Elas extravasavam para o rio Iguaçu e acabavam no mar. No meio do caminho, as águas das cheias entravam por dois braços do delta que também alcançavam o mar: o de Gruçaí e o de Iquipari. Esses dois braços saem do rio Água Preta, paralelamente à linha de costa, e correm boa parte no sentido perpendicular a ela até se dirigirem para o norte por força da corrente marinha predominante. 
    Lagoa de Gruçaí

    Naveguei esses dois canais, hoje em forma de lagoas alongadas que só abrem suas barras por força de braços ou de máquinas. A de Gruçaí foi urbanizada e recebe muito esgoto. Embora seja mais longa que a de Iquipari, não se pode ir muito longe navegando em suas águas. Um solitário pé de mangue branco e um pequeno bosque dessa planta são indício de que ela tinha ligação permanente ou temporária com o mar. As plantas de mangue são grandes navegadoras. Elas devem ter saído do Paraíba do Sul em estado de semente e ter entrado no antigo braço, hoje lagoa, quando ela se abria para o mar. Das quatro espécies, apenas uma resiste ali com dificuldade. 

    A de Iquipari está menos doente. O volume hídrico é maior que a de Gruçaí, embora esta seja mais longa. A barra também é aberta por força de braços e máquinas. A água das enchentes não tem mais força para romper a língua arenosa. O indício mais claro de ligação da lagoa com o mar são as plantas de manguezal. Já encontrei em seu interior exemplares de mangue branco, vermelho e siribeira. Há muito tempo, não a navego, mas parece que só o mangue branco sobrevive em águas rasas e na areia molhada. 
    Lagoa de Iquipari

    Caminho para o sul e me deparo com o espúrio canal aberto para entrada e saída de navios. É um estaleiro que nunca deveria macular a beleza do seio arenoso. Nunca entrei lá.  Tenho medo de chorar. Apenas pergunto se o mangue penetrou nesse largo, comprido e fundo canal. Antes do grande porto do Açu, eu transitava livremente pela praia. Agora, tenho de contornar a aberração da empresa para chegar à barra da lagoa do Açu, que foi o belo rio Iguaçu antes da abertura da Barra do Furado. Por duas vezes, naveguei esse rio até o banhado da Boa Vista. Além de maravilhado, fico impressionado com a beleza dessa agora lagoa alongada. Prova de que foi um rio. Até perto do banhado, as margens são ornadas com plantas de mangue de quatro espécies: branco, vermelho, siribeira e de botão. Não escondo minha emoção ao descobrir que, no arquipélago de Galápagos, essas espécies estão presentes. Senti Galápagos perto da minha casa.
    Lagoa do Açu

    Continuo minha viagem real e imaginária. Quando não posso caminhar, imagino. Sempre ao sul, agora dobrando a oeste, passo pela Barra Velha. De um lado o mar. Do outro o Lagamar. O único vestígio que encontro da ligação da lagoa com o mar é uma fímbria de água salgada que passa sob a espessa duna e entra na lagoa. Uma rara informação dá conta de que era preciso romper essa duna com força braçal ou com máquinas para que água excedente da lagoa vertesse para o mar. 
    Lagoa do Lagamar

    Chego ao final da minha excursão na Barra do Furado, ligação da água doce continental com o mar. Ela não existia até 1688, quando o capitão José de Barcelos Machado a abriu. Esgotada a água doce acumulada no continente pelas chuvas, o mar logo a fechava. Foi assim durante quase quatro séculos com os jesuítas, governantes, ruralistas e pescadores.

    A barra foi fixada, ou quase, quando o Departamento Nacional de Obras e Saneamento abriu o canal da Flecha e substituiu a antiga vala do Furado. A foz do canal da Flecha foi prolongada dentro do mar com dois espigões de pedra. As correntes marinhas passaram a acumular areia no espigão direito e a erodir a praia a partir do espigão esquerdo.

    Mas já escrevi muito sobre isso tudo. Não vem muito ao caso para mim por não haver mistério ocultando o que o capitão e o DNOS pretenderam fazer. O mistério existe no manguezal da margem esquerda do canal e do trecho do rio Iguaçu entre a lagoa Feia e a comporta do Furadinho. Talvez não me reste vida suficiente para desvendar o mistério do mangue da capelinha de São Miguel porque o mangue da margem direita do canal eu vi nascer.
    Barra do Furado

    Mas bem dentro aqui, como cantou Caetano Veloso sobre Santo Amaro, sua cidade natal, nunca me esqueci. Nunca esquecerei aquela curva aberta, aquela coisa certa, aquele amor que trago em mim por ti. Vão passando os anos e eu não te perdi. Meu trabalho é te traduzir. Aquela curva aberta, aquele seio feminino sem mamilo formado de areia. Mas não sei se conseguirei fazer a tradução.

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