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Ao sul da lagoa Feia (final)

Por Arthur Soffiati

Com o fracasso de todas as comissões de saneamento criadas entre 1902 e 1933, o governo federal criou, em 1933, a Comissão de Saneamento da Baixada Fluminense. Essa instituição assinala a participação mais ativa do Estado na economia com o governo inaugurado por Getúlio Vargas em 1930. O engenheiro Hildebrando de Araujo Góes foi nomeado para dirigi-la. Em 1934, ele entregou um relatório ao governo detalhando os trabalhos das comissões anteriores e escolhendo um plano de trabalho adequado para a drenagem da baixada dos Goitacazes. Baixada Fluminense designava genericamente as quatro grandes baixadas do Estado do Rio de Janeiro: Sepetiba, Guanabara, Araruama e Campos dos Goytacazes. Para esta última, Góes afirmou que o único projeto a se salvar havia sido formulado Saturnino de Brito, já analisado. 

Quando o fim de um estudo é a intervenção, parece necessário dividir-se a realidade, como a lhe dar uma ordem humana, e não a procura de uma ordem natural. É o que faz Hildebrando de Araújo Góes, em que que pese a importância do seu relatório geral sobre as planícies do Rio de Janeiro. Primeiro, ele une o que pode relativamente ser compreendido de forma separada até mesmo para melhor entendimento da realidade. O que Marcelino Ramos da Silva denominou de delta da lagoa Feia, ele denomina de antigo delta do Paraíba do Sul. Embora possamos reconhecer a existência de dois sistemas hídricos – o do Paraíba do Sul e do Ururaí – devemos também reconhecer que os dois sistemas se interligam de forma complexa. Segundo, ele separa uma só bacia em duas para efeito de intervenção: a do sul da lagoa Feia e a do Açu. Já vimos que, a começar por Manoel Martins do Couto Reis, vários autores identificaram apenas um sistema ao sul da lagoa Feia, posto que complexo, com duas saídas para o mar: a Barra do Furado, aberta pela mão do homem, e a do Iguaçu, aberta por ação da natureza. Segundo Góes, o sistema de escoamento da lagoa Feia “(...) compreende o labirinto de sangradouros da lagoa Feia, que convergem para a Barra do Furado. Esta bacia também compreende um rosário de lagoas, muito rasas, situadas ao norte, que servem, normalmente, de pastos: Tambor, Sussunga, Olhos D’Água, Cedro etc. Elas se ligam à Vala do Mato, na lagoa da Aboboreira. Nas grandes cheias, recebem água da lagoa Feia, afluindo, nas estiagens, para a Vala do Mato. Esta drena a lagoa Feia para as lagoas da Aboboreira e das Conchas. As águas seguem, depois, pelo córrego do Pau Fincado e atingem a lagoa dos Coqueiros, enorme pasto facilmente inundável, que ficará ao abrigo das águas, construindo-se grande canal entre a lagoa Feia e o oceano e uma comporta na origem na vala do Mato. ” (“Saneamento da Baixada Fluminense”. Rio de Janeiro: Comissão de Saneamento da Baixada Fluminense, 1934).     

O autor continua descrevendo o funcionamento de drenagem da lagoa e menciona uma série de canais e lagoas. Na passagem acima, já entra em cena parte do projeto de regulação hídrica. Na linguagem científica de hoje, todos os ecossistemas hídricos formadores do escoamento da lagoa Feia seriam considerados áreas úmidas, pois que com profundidades inferiores a seis metros. O curioso é que o fundo de certas lagoas que secavam durante as estiagens é considerado pasto. Pela primeira vez, a Barra Velha aparece com explicitude no relatório de Góes: “Há menos de dois séculos, a lagoa Feia sangrava para o mar por intermédio do rio da Onça, que se lançava da Barra do Lagamar ou Barra Velha. Atualmente, a Barra do Lagamar esgota nas grandes cheias as águas de chuva ou extravasadas pelo Paraíba. Para que funcione, é preciso abri-la com penoso trabalho (...). As oscilações de nível nesta lagoa (do Lagamar) dependem do estado da Barra do Furado: quando esta se fecha, devido à areia carreada pelas correntes litorâneas, a água sobe, no Lagamar, inundando uma área apreciável até o rio Açu. A (...) Barra do Lagamar comunica-se com o rio Açu pelos córregos do Farol e Iguaçu. Tal ligação deve ser estudada cuidadosamente, pois parece de grande importância quer para o exaguamento quer para o abastecimento d’água da região do Açu interior. ” 

Hildebrando de Araujo Góes identifica três saídas para o mar ao sul da lagoa Feia: a Barra do Furado, a Barra Velha e a Barra do Açu ou Iguaçu. A derivação da Barra do Furado no seu processo de fechamento foi estudada por ele. Os croquis mostram que o processo é o mesmo que ocorre atualmente, menos a derivação do canal para leste porque hoje os espigões de pedra não mais o permitem. Seu fechamento começava com a deriva da vala para leste e com a formação progressiva de um pontal de areia de oeste para leste. Hoje, a areia que deveria avançar no fechamento acumula-se no espigão direito a oeste. Depois do espigão esquerdo, a leste, o mar erode a praia.
GÓES, Hildebrando de Araújo. Saneamento da Baixada Fluminense. Rio de Janeiro: Comissão de Saneamento da Baixada Fluminense, 1934. Processo de fechamento da Barra do Furado 

Uma foto mostra o cômoro de areia que se interpunha entre o mar e o Lagamar, atestando que era mesmo difícil superar o obstáculo e abrir a Barra Velha. O Açu, separado para fins práticos, aparece aqui ligado a todo o sistema.
Única foto conhecida sobre a Barra Velha, publicada em 1934 por Hildebrando de Araujo Góes. O cavaleiro está de costas para o Lagamar. No seu lado direito, há uma espécie de córrego. A sua frente, posta-se imensa barragem de areia, separando o mar da lagoa. Para rompê-la, é necessário penoso trabalho. Ainda hoje, um filão de água do mar filtra-se sob a areia e alcança a lagoa

Góes separará a bacia do Açu-Atlântico para tratar da parte final de um sistema hídrico constituído por rio Imbé-lagoa de Cima-rio Ururaí-lagoa Feia-rio Iguaçu. Em suas palavras, “Esta bacia compõe-se de um rosário de lagunas ou “restingas” que escoam pelo rio Açu ou pelas barras de Gruçaí e Quipari (?). Recolhe as águas da chuva e de transbordamento do Paraíba desde Campos até o oceano Atlântico. Quando há extravasamento ou arrombamento na linha da Leopoldina, as águas de cheia do Paraíba penetram na baixada em dois pontos principais: na Barrinha, a jusante de Barcelos, que deságua na lagoa do Taí Pequeno, e nas proximidades do Ponto do Leite, caindo para a lagoa do Taí Grande ou Taí da Praia”.

Pelo visto, o engenheiro não percebeu devidamente que dois sistemas hídricos, ou subsistemas formadores de um grande sistema, comunicavam-se naturalmente por canais defluentes do Paraíba do Sul em direção ao Ururaí-Iguaçu: Itereré, Cacumanga, Cula, Cambaíba, São Bento e Água Preta, como mostra um mapa organizado por Alberto Ribeiro Lamego em 1954 (Carta geológica do Brasil, escala 1:100.000, folhas Campos (2708), Cabo de São Tomé (2709), Lagoa Feia (2744) e Xexé (2745). Rio de Janeiro: Ministério da Agricultura/Departamento Nacional da Produção Mineral/Divisão de Geologia e Mineralogia, 1954). Esses defluentes fluíam na forma de cursos d’água que formavam lagoas no seu trajeto. Aproveitando essas linhas naturais de drenagem, o Departamento Nacional de Obras e Saneamento abriu canais retilinizados, simplificando a natureza para fins agropecuários. Se isolarmos cada componente dos antigos defluentes, a noção do todo perder-se-á.

Pelo menos, Góes confirma que as atuais lagoas de Gruçaí e Iquipari eram braços auxiliares do rio Paraíba do Sul para descarga de água doce no mar. As duas se ligavam ao rio Água Preta, que nascia no Paraíba do Sul e findava no banhado da Boa Vista, um engordamento do rio Iguaçu. Esse, por sua vez, nascia na lagoa Feia, formava a lagoa do Lagamar, recebia contribuições de defluentes da lagoa Feia e do Paraíba do Sul, desembocando no mar. 
Mapa da planície goitacá formulado por Alberto Ribeiro Lamego em 1954. Legenda: 1- subsistema Paraíba do Sul; 2- Subsistema Ururaí; A- Defluente Itereré; B- Defluente Cacumanga; C- Defluente Cula; D- Defluente Cambaíba; E- Defluente São Bento; F- Defluente Água Preta; F1- lagoa de Gruçaí; F2- lagoa de Iquipari
Por fim, Alberto Ribeiro Lamego não podia ficar fora dessa resenha. Ele mostra que Campos está na cota 12,641 m., enquanto que Santo Amaro, bastante perto do mar pela margem direita do Paraíba do Sul, situa-se na cota 3,020 m., encaminhando-se para a cota 0 m. no mar. Assim, as águas que transbordavam por esta margem só podiam se perder em direção ao oceano. Daí que, com exceção do rio Carapebas, que se dirige para a barra do Furado, “o caminho natural dessa rede labiríntica era o rio Açu, que também recebe na margem esquerda o rio Novo e vai buscar uma saída para o mar num tortuoso curso entre restingas. Com as obras de saneamento que encaminham as águas para o Furado, o Açu é entretanto, hoje, um rio quase inútil, com sua foz obstruída pelas areias” (Geologia das quadrículas de Campos, São Tomé, Lagoa Feia e Xexé. Boletim nº 154 da Divisão de Geologia e Mineralogia. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 1955). 

Entre 1940 e 1950, as obras do DNOS concentraram-se na margem direita do rio Paraíba do Sul, a parte mais complexa da planície fluviomarinha. Os defluentes naturais da lagoa Feia que se reuniam até alcançar a Barra do Furado, abertura artificial executada em 1688, foram substituídos pelo canal da Flecha, ligando a lagoa Feia diretamente ao mar, com seu prolongamento mar adentro por dois espigões de pedra. O curso final do rio Ururaí foi canalizado. Os subsistemas Paraíba do Sul (A) e Iguaçu (B) foram ligados por oito canais abertos sobre os defluentes naturais do Paraíba do Sul até o Ururaí e o canal da Flecha. Canais secundários e terciários drenaram o rosário de lagoas. O mundo líquido complexo registrado por Manoel Martins do Couto Reis em 1785 empobreceu-se. 
Mapa mostrando obras executadas pelo Departamento Nacional de Obras e Saneamento na margem direita do rio Paraíba do Sul entre 1940 e 1948.

Quanto à passagem de embarcações do continente para o mar e vice-versa, ela era difícil e perigosa nos rios da ecorregião de São Tomé. Vale dizer, pelos rios Itapemirim, Itabapoana, Guaxindiba, Paraíba do Sul e Macaé (SOFFIATI, Arthur. As saídas de água continental para o mar na Ecorregião de São Tomé. Portal do Farol de São Thomé, Campos dos Goytacazes, 16 de agosto de 2017). Apresentando a dificuldade desses cinco, talvez a barra do rio Iguaçu permitisse a saída e a entrada de barcos, pelo menos no tempo em que a barra era aberta pela força das águas marinhas ou continentais. Não se pode asseverar o mesmo pela antiga Barra do Furado e pela Barra Velha. Depois de aberto o canal da Flecha (entre 1942-1949), a navegação tornou-se possível com todas as dificuldades apresentadas pelos outros rios e com o agravante do perigo. Os barcos, geralmente de pesca, devem esperar condições favoráveis de maré, ondas e ventos para poder entrar ou sair.
A perigosa navegação na barra do canal da Flecha. Foto do autor

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