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Ao sul da lagoa Feia (II)

Por Arthur Soffiati

Para drenar as planícies do Rio de Janeiro de maneira a atender eficazmente à agropecuária, o governo do Estado criou a Comissão de Estudos e Saneamento da Baixada do Estado do Rio, que operou de 1894 a 1902. Seu primeiro chefe foi o engenheiro João Teixeira Soares, substituído pelo engenheiro Marcelino Ramos da Silva. Este formulou seus planos em sistema métrico decimal. Ficamos sabendo, assim, que a lagoa Feia contava com 370 km². No mapa “Lagoa Feia e suas dependências”, em escala 1:200.000, de 1896, Marcelino Ramos da Silva não mostra o mesmo detalhamento de Couto Reis quanto ao sul da grande lagoa, mas, nele, estão assinalados a Barra do Furado, o rio Açu ou Iguaçu recebendo o rio Veiga e desembocando no mar. O mapa não mostra a lagoa do Lagamar nem a barra Velha, mas confirma com eloquência as duas saídas para o mar abaixo do rio Paraíba do Sul: a foz natural do rio Iguaçu (Barra do Canzoza) e a Barra do Furado, aberta no final do século XVII.
Mapa “Lagoa Feia e suas dependências”, em escala 1:200.000, de 1896, Marcelino Ramos da Silva

Marcelino projetou um canal retilíneo e largo ligando a lagoa Feia ao mar no ponto em que ela mais se aproxima da linha costeira. A finalidade do canal de Jagoroaba, totalmente em terreno arenoso de restinga, era substituir com vantagem a Barra do Furado no escoamento das águas continentais para o mar. O projeto foi criticado pelo engenheiro sanitarista Francisco Saturnino Rodrigues de Brito (BRITO, Francisco Saturnino Rodrigues de. “Saneamento de Campos, Estado do Rio de Janeiro”. Campos: Typographia de Silva Carneiro & C., 1903). Resultou em completo fracasso. O escoamento continuou a ser feito pela Barra do Furado.
Marcas do canal de Jagoroaba. Foto do autor

A Comissão de Estudos e Saneamento da Baixada do Estado do Rio não teve êxito em seu empreendimento de drenagem e foi extinta.

Na década de 1920, o governo do Estado criou a Diretoria de Obras do Estado do Rio de Janeiro e encomendou um projeto de drenagem da Baixada dos Goytacazes a Francisco Saturnino Rodrigues de Brito (BRITO FILHO, Francisco Saturnino de. Melhoramentos do rio Paraíba e da lagoa Feia e o projeto Saturnino de Brito. “Revista Brasileira de Engenharia” (separata). Rio de Janeiro: junho de 1931). O famoso engenheiro, já em idade madura e bastante experiente, debruçou-se sobre trabalhos anteriores formulados para o que se chamava de saneamento e sobre a área de Campos dos Goytacazes, a ser drenada. Seu trabalho se tornou um marco. Ele escreveu pouco sobre o sul da lagoa Feia, não acrescentando novidades sobre as informações anteriores: “As lagoas Restinga, Saquarema, Taí Grande, Taí Pequeno, Jacarés, Colomins, Capões, Bananeiras, Coqueiros e outras recebem água das enchentes, comunicam-se e defluem para a lagoa Feia, para o Furado ou para o Açu por meio de complicada rede de valas, córregos e canais mais ou menos obstruídos por má conservação e passagem de estradas”. (BRITO, Francisco Saturnino Rodrigues de. “Defesa contra inundações: melhoramentos do rio Paraíba e da lagoa Feia”. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1944).

As lagoas mencionadas por Saturnino de Brito situavam-se entre o leste da lagoa Feia e o mar, na margem direita do rio Paraíba do Sul. Como ele mesmo mostrou no trabalho que estamos analisando, tais lagoas ficavam no terreno mais sujeito a transbordamentos do grande rio. Conforme já observado, as águas desses transbordamentos não voltavam mais para a calha do rio quando cessavam as enchentes, mas desciam por defluentes sinuosos e complexos em direção à linha de costa. Elas alimentavam as lagoas citadas e outras mais. Por sua vez, as enchentes também alimentavam a lagoa Feia. Nas estiagens, as pequenas lagoas escoavam para a Feia que escoava pelos incontáveis defluentes que partiam da sua margem sul, notadamente do Saco do Capivari, depois nomeado de Lagoa de Dentro. As águas ficavam retidas no continente por encontrarem um paredão de areia no litoral que as obrigava a fluir lentamente em direção a leste, formando o rio Iguaçu, e alcançavam o mar ao norte do cabo de São Tomé. Em 1688, o grande proprietário de terras José de Barcelos Machado furou o paredão de areia ao sul da lagoa Feia e abriu a vala do Furado. Depois de nomear os principais defluentes da lagoa Feia, o engenheiro completa: “O rio Açu, que é um coletor de várias lagoas entre a lagoa Feia e o Paraíba, comunica-se com a lagoa Feia pelo canal da Onça ou Vala Grande (aberta pelo capitão J. Barcelos Machado) e, por outros, com o Lagamar e Furado; ao norte está a barra do Açu, nas mesmas condições do regime das do Furado”.  

O Açu de que fala Saturnino de Brito é o mesmo rio Iguaçu. Ele vai observar que toda água de transbordamento pela margem direita do Paraíba do Sul não encontra apenas as três saídas para o mar que estamos estudando: Furado, Velha e Açu, mas também Gruçaí e Iquipari.

Seu plano contempla quatro canais ligando o continente ao mar no setor meridional da lagoa Feia: canal do Furado (correspondendo ao atual canal da Flecha), canal da Barra Velha, canal do Açu ou Iguaçu e canal de Gruçaí. Em termos de escoamento de água para o mar, o projeto de Saturnino de Brito seria bem mais eficiente que o executado pelo DNOS, com apenas o canal da Flecha. Em termos ambientais, contudo, o canal do Açu drenaria a lagoa Salgada e talvez ressecasse mais ainda a baixada, permitindo uma salinização maior das terras que com o atual sistema.
Projeto de drenagem da Baixada dos Goytacazes formulado por Saturnino de Brito com saída projetadas para o mar. Legenda: 1- canal do Furado (futuramente canal da Flecha), 2- Barra Velha, 3- canal do Açu, 4- canal de Gruçaí

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