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quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Os manguezais do rio Iguaçu

Por Arthur Soffiati
Não deve existir trecho costeiro melhor que outro. Para o leigo e o estudioso, a escolha de um litoral encantador aos olhos ou ao conhecimento é subjetiva. Da minha parte, gosto da costa lisa, baixa relativamente nova e furiosa que se estende do rio Macaé ao rio Itapemirim. 

Cheguei até a denominar a porção continental que está na retaguarda dela de Ecorregião de São Tomé. Recortando mais, o trecho que se estende de uma restinga à outra, é o meu preferido. Aquela faixa de areia elevada e estreita que liga as duas restingas do norte fluminense e que levou Alberto Ribeiro Lamego a escrever que, não fosse este cordão estreito e alto, o mar invadiria a planície aluvial. Posso dedicar o que me resta de vida para estudá-la e compreendê-la. Jamais conseguirei. Há quarenta anos, entrego-me a este estudo. Sempre falta algo. Sempre aprendo mais.  

Da lagoa Feia, saía um sangradouro volumoso que recebeu vários nomes: rio Barro Vermelho, rio do Espinho, rio do Furado, rio Viegas e rio Iguaçu. Na década de 1940, o Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS) cortou o complexo de defluentes da lagoa Feia ao abrir o canal da Flecha. Aos poucos, o Iguaçu, na margem esquerda do canal, foi seccionado e se tornou irreconhecível. Parte do seu leito foi aproveitado pelo DNOS para a abertura do canal do Quitingute. Contudo, na margem direita do canal da Flecha, restou ainda um estirão do antigo rio, hoje mais conhecido como Espinho. Ele está barrado junto ao canal da Flecha pelas comportas do Furadinho. Durante as chuvas, ele ganha volume. Se afeta as terras conquistadas às águas para a agropecuária, os proprietários forçam a abertura das comportas a fim de escoar para o mar o que eles consideram excedente líquido.
Trecho do rio Iguaçu em Quissamã

De todas as formações vegetais nativas que ocorrem neste trecho da costa, a mais indicativa das transformações impostas pela economia de mercado a partir do século XVII é o manguezal. Levanto a hipótese de que este tipo de vegetação se estendia ao longo do rio Iguaçu, que corria atrás da crista arenosa no passado, da sua foz a um ponto do rio, hoje nas imediações da fazenda São Miguel, em Quissamã. Suponho que a influência de maré chegava até lá, transportando sementes (propágulos) das três espécies exclusivas de mangue mais comuns na região: o mangue vermelho (Rhizophora mangle), a siribeira (Avicennia germinans) e o mangue branco (Laguncularia racemosa).
Antigo rio Iguaçu com suas três saídas para o mar. 
Mapa de Bellegarde e Niemeyer-1865 
Pontos da costa de Campos e de Quissamã em que ocorrem manguezais: 
1- Manguezal da lagoa do Açu; 2- manguezal da Carapeba; 
3- manguezal do canal da Flecha; 4- manguezal da fazenda São Miguel

Sucede que as obras empreendidas pela Comissão de Saneamento da Baixada Fluminense e pelo DNOS, a partir de 1935/1940, substituíram o rio Iguaçu pelo canal da Flecha. Os moradores mais antigos dessa costa não chegaram a conhecer tais obras e pensam que a configuração geográfica atual existe desde sempre. O Iguaçu foi abandonado e secionado em vários trechos. As marés não sobem mais pelo seu curso como antigamente. O manguezal que começava na foz do Iguaçu (hoje lagoa do Açu) corria na retaguarda do cordão sobre o qual se ergueriam as localidades de Xexé e de Farol de São Tomé e chegava à fazenda São Miguel. Dele, restaram três fragmentos: o da foz, que se estende por 10 quilômetros num canal embutido na restinga, o da ilha da Carapeba, na margem esquerda do canal da Flecha, e o da fazenda de São Miguel. 
Manguezal da lagoa do Açu: 
população de mangue de botão entre outras espécies

O fragmento com maior diversidade é o primeiro, junto à foz. Além das três espécies exclusivas desse ecossistema, encontra-se ainda o mangue de botão (Conocarpus erectus), que pode crescer em outro ambiente. No fragmento da ilha da Carapeba, até o momento, só foi encontrado a mangue branco, que forma um vasto bosque sob forte estresse. Na fazenda São Miguel, restou apenas um tufo de manguezal, com diversidade menor que o de foz, mas com diversidade maior que o da Carapeba. Esse tufo já passou por secas ingentes, levando os estudiosos (poucos) a concluir por sua extinção. Contudo, ele se renovou e apresenta exemplares de mangue branco e de siribeira florindo, frutificando e se reproduzindo em condições precárias.
Manguezal da ilha da Carapeba em 2013: 
na frente, areia da restinga; 
no fundo, população de mangue branco

A novidade é que o canal da Flecha formou um estuário instável que permitiu a entrada de sementes de mangue branco formadores de um pequeno manguezal na margem direita do curso d’água, no lado de Quissamã, junto à vila de Barra do Furado. O autor presenciou a formação deste manguezal monoespecífico nos anos de 1990. Mesmo que moradores locais afirmem que os quatro exemplares foram plantados por mão humana, eles não têm relação com o antigo rio Iguaçu. 
Exemplares de mangue branco na margem direita 
do canal da Flecha na década de 1990. 
Pais do manguezal atual 
Manguezal da margem direita do canal da Flecha em 2018

Mas apenas levanto a hipótese de que o manguezal da Carapeba e da Fazenda São Miguel são fragmentos do longo manguezal que se desenvolveu no curso do antigo rio Iguaçu e seus formadores. À medida que ele se estendia nas margens dos rios, a biodiversidade ia se empobrecendo. Curioso que, na Carapeba, ele seja formado apenas pelo mangue branco e em ponto mais recôndito e impróprio, como na fazenda São Miguel, ele conte com duas espécies. Seria preciso um estudo de sedimentos (sedimentologia) e de pólen (palinologia). Alguns já foram empreendidos na região, mas não conto que outros sejam feitos para desvendar o mistério que encontrei.
Manguezal (seco) da fazenda São Miguel na década de 1990. 
Manguezal da fazenda São Miguel 
com duas espécies exclusivas em 2018

A segunda hipótese está associada ao canal das Flechas. Teria ele permitido a colonização da ilha da Carapeba por mangue branco? As duas espécies de mangue na fazenda São Miguel teriam penetrado quando da abertura periódica da comporta do rio Espinho ou Iguaçu? Caso ele tenha aproveitado uma abertura de comporta, cumpre saber como resiste, floresce e se reproduz sem a influência das marés. Quanto ao manguezal da margem direita do canal da Flecha, em Quissamã, não resta dúvida de que os exemplares da espécie entraram pelo canal ou foi plantado, embora seja raro uma pessoa plantar mudas (plântulas) de manguezal. Seu crescimento foi rápido. As condições eram razoavelmente favoráveis para tanto. Embora o estuário (encontro de rio e mar) formado no canal sofra muitas variações entre o período da estiagem, quando as comportas que controlam o fluxo de água doce proveniente da lagoa Feia são fechadas, e o período de cheia, quando elas são abertas, o mangue branco resiste a essas variações. 

Crescendo sobre solo arenoso, os cinco exemplares disseminaram sementes (propágulos) e formaram um bosque, criando um substrato lamoso, típico de manguezal. Curioso notar que, antes mesmo desse bosque, já havia guaiamum na área, como a demarcar um manguezal inexistente, mas potencial. Hoje, com o substrato lamoso, podem ser encontrados vários exemplares do caranguejo-uçá, que vive no centro do manguezal. Eles ainda não são coletados para consumo porque a tradição pesqueira de Barra do Furado se volta para a pesca no mar ou no canal. A economia local ainda não descobriu essa espécie. Por enquanto, ela está protegida pelo desconhecimento.
Exemplar de caranguejo-uçá no manguezal 
da margem direita do canal das Flechas em 2018

Por Arthur Soffiati / Fotos do Autor

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