quarta-feira, 4 de outubro de 2017

A planície goitacá antes e durante a globalização europeia (I)

Fotos: Autor
Por Arthur Soffiati

Creio que o primeiro a distinguir com clareza três patamares geológicos e geomorfológicos no Distrito dos Campos dos Goyitacás, hoje correspondendo às regiões norte e noroeste fluminense, foi o militar cartógrafo Manoel Martins do Couto Reis, em 1785. 

Em seu famoso relatório, ele escreve: “Divide-se todo o Distrito dos Campos em três sortes de terreno, todas diferentes por suas qualidades, situação e fecundidade. Os dois primeiros são baixos, planos e quase no nível do mar, um destes mais ameno por suas vistosas campinas, divididas por pequenos bosques, rios ou pantanais de cujas separações lhes resultam outros tantos nomes, como Campos de Macaé, de Jurubatiba, de Carapebus, dos Sabões, de Jagoroaba, da Boa Vista, de Santo Amaro, dos Algodoeiros, Campo Limpo, Campos de Taí etc (...) O segundo terreno é de matos grossos, os quais estão em muita parte destruídos pelo uso comum e falta de economia – herdado sem reparo e sem contemplação – de os cortarem e queimarem quando preparam a terra para a agricultura. Segue-se o terceiro terreno, que é mais ocidental e tanto mais elevado quanto mais se aproxima das fraldas das serras. Este é abundante de preciosas madeiras.”

Na classificação de Couto Reis, o primeiro terreno é formado pela restinga e pela planície aluvial, ou seja, por terras arenosas e argilosas da baixada. No conjunto, ela forma uma grande planície fluviomarinha. Em outras palavras, uma planície constituída por aluviões transportados pelos rios das terras mais altas e por sedimentos arenosos conduzidos pelo mar. No tempo do capitão cartógrafo, ainda não havia a classificação das terras por idade de formação. Hoje, sabe-se que esta planície foi construída pela própria natureza em tempos geológicos recentes, com idade inferior a cinco mil anos. Para a história humana, pode parecer muito tempo, mas, para a história natural, é uma breve fração. Trata-se, portanto, do terreno mais recente da região.

O segundo patamar identificado por Couto Reis corresponde aos tabuleiros, que podem ser facilmente reconhecidos atualmente por seus terrenos baixos, ondulados e desprovidos de pedras. Quem vai de Campos a São Francisco ou de Campos a Itaperuna encontra-os com frequência. A idade desse terreno varia de 25 a 5 milhões de anos antes do presente. Sua cobertura vegetal original era constituída de florestas estacionais semideciduais. Couto Reis já denunciava a destruição de suas florestas por corte e fogo no fim do século XVIII.

Por fim, o terceiro terreno corresponde à zona serrana, com idade em torno de 600 milhões de anos. É, portanto, muito antiga. Na margem direita do Paraíba do Sul, ele é elevado. Trata-se da Serra do Mar, conhecida regionalmente com o nome genérico de Imbé. Sua cobertura vegetal original constituía-se de florestas ombrófilas, isto é, úmidas e complexas. Na margem esquerda, ela se caracteriza por elevações baixas e cobertura de matas sujeita a perda de folhas na estação seca (estacionais).

Dos três degraus geológicos e geomorfológicos, trataremos aqui apenas do primeiro, por ser a planície fluviomarinha ocupada intensamente tanto pelos povos indígenas quanto pelos europeus. Parece inoportuno, aqui e agora, analisar a formação desta vasta planície, uma das mais estudadas do Brasil. Em outro momento, ela será abordada.

A planície antes dos europeus

Os povos nativos da América não são tão nativos. Atualmente, já se fala em quatro levas de imigrantes provenientes da Ásia e do oceano Pacífico. Eles teriam povoado a América em momentos distintos. Já se fala que a primeira onda colonizadora é anterior ao “Homo sapiens”. A primeira migração constituir-se-ia de indivíduos do “Homo neandertalenses”, antes de 200 mil anos atrás. Com base em alguns achados de esqueletos, há um grupo de cientistas que sustentam ter sido a primeira leva de imigrantes provenientes da Austrália. Eles seriam negroides, como os aborígenes. Há quem sustente também que o povoamento da América teria começado com povos da Polinésia. Eles teriam chegado aqui pelo oceano Pacífico. Há, por fim, a corrente mais sólida, explicando que o povoamento da América foi feito por povos da Ásia. Eles atravessaram o estreito de Bhering durante o Pleistoceno, quando o declínio de cerca de cem metros do nível dos mares criou uma ponte natural entre Ásia e América. Eles então entraram num continente em que dominavam animais de forma intensa.

Do Alasca, os asiáticos conquistaram toda a América do Norte e do Sul, diversificando-se em vários povos, culturas e línguas. Antes da chegada dos europeus no que seria o Brasil, a planície fluviomarinho do futuro norte fluminense era dominado pela nação goitacá, pertencente ao grupo linguístico macro gê. Os membros dessa nação eram diferentes, em termos físico, cultural e linguístico dos tupis.

Consideremos que, em 1500, a linha de costa havia alcançado o ponto atual com pequenas flutuações. No seu interior, havia uma infinidade de cursos d’água e de lagoas, formando uma geografia caótica no sentido de uma geometria fractal. No esforço de compreender aquele tão complexo quadro, podemos tomar dois rios como eixos: o Paraíba do Sul e o Iguaçu. O eixo Paraíba do Sul mostrava-se de mais fácil compreensão. Em suas margens, situavam-se várias lagoas, em número maior na margem direita, pois a esquerda é mais alta que o nível médio do rio. A direita é mais baixa. A água que transborda pela margem esquerda caía em lagoas. Com o fim das cheias, o excesso voltava ao rio. Pela margem direita, toda água transbordada vertia para o sistema Iguaçu, passando por incontáveis lagoas.

O complexo Iguaçu apresenta dificuldade de entendimento à primeira vista por ser constituído de rios e lagoas. De modo simples, podemos dizer que ele é formado pelo rio Imbé, que desemboca na lagoa de Cima, que verte pelo rio Ururaí em direção à lagoa Feia, que deflui por uma infinidade de braços que se dirigem à lagoa do Lagamar, da qual saía um curso d’água com o nome de Iguaçu, chegando ao mar pelo estirão hoje conhecido como lagoa do Açu. Do Paraíba do Sul para o Iguaçu, defluíam vários cursos d’água, formando um aranhol complexo e não mais existente.
Carta Topográfica da Capitania do Rio de Janeiro desenhada por Manoel Vieira Leão em 1767. Legendas: 1- Eixo Paraíba do Sul; 2- Eixo Iguaçu, formado pelo rio Imbé-lagoa de Cima-rio Ururaí-lagoa Feia-defluentes da lagoa-rio Iguaçu

Quanto à cobertura vegetal nativa da planície fluviomarinho em 1500, existia, na baixada aluvial, plantas aquáticas nas margens de rios e lagoas e vegetação herbácea nas partes mais altas. Veloso denomina esta vegetação como pioneira de influência fluvial. 
Paisagem semelhante à dos campos nativos da Baixada dos Goytacazes

Havia pontos mais altos ainda em que a umidade se reduzia e permitia o crescimento de vegetação arbórea. Eram as matas higrofilas de várzeas.

Nas restingas, parte arenosa da planície, cresciam as formações vegetais de influência marinha. Finalmente, na foz dos rios Paraíba do Sul e Iguaçu, bem como em lagoas que funcionavam como rios em tempos de enchente, a exemplo das lagoas de Grussaí e Iquipari, dominava a vegetação de influência fluviomarinho, popularmente conhecida como manguezal.
Colina recoberta de mata higrófila de várzea em meio ao banhado do rio Macabu, nas cercanias de sua foz
Restinga protegida pelo Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba
Manguezal do Paraíba do Sul

Nos primórdios da colonização da baixada, os goitacás foram mitificados como um povo aguerrido. Antropófagos para uns, não antropófagos para outros; pescadores e caçadores para uns, já conhecedores da agricultura para outros; moradores em casinholas sobre estacas dentro de lagoas para uns, construtores de assentamentos em terra, como os outros nativos do Brasil, como aponta a arqueologia moderna; incendiários de florestas para uns; adaptados aos ecossistemas úmidos da baixada para a maioria dos estudiosos.

Muito se falou de forma díspar dos goitacás. Os achados arqueológicos no arquipélago de Santana, defronte a foz do rio Macaé, e do sítio do Caju, na cidade de Campos, mostram que eles viviam em assentamentos coletivos, conheciam uma agricultura incipiente, pois a pesca e a caça inibiram o cultivo da mandioca, por exemplo. Desenvolveram a cerâmica e nunca tiveram capacidade de destruir ecossistemas aquáticos e vegetais em grande escala. Sua economia era de subsistência, e não mercantil. Suas trocas não eram comerciais.

Não usaram o fogo sistematicamente para destruir as florestas da baixada, como afirma Warren Dean. Estudos de palinologia mostram que não havia florestas numa planície cheia de lagoas.
Mapa etno-histórico de Curt Nimuendaju
Leituras adicionais

COUTO REIS, Manoel Martins do. Descrição (nº. 236) geográfica, política e cronográfica do Distrito dos Campos Goitacás que por ordem do Ilmo e Exmo senhor Luiz de Vasconcellos e Souza do Conselho de S. Majestade, Vice-Rei e Capitão General de Mar e Terra do Estado do Brasil, etc se escreveu para servir de explicação ao mapa topográfico do mesmo terreno, que debaixo de dita ordem se levantou. Rio de Janeiro: manuscrito original, 1785.
DEAN, Warren. A ferro e fogo: história e a devastação da Mata Atlântica brasileira. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

DIAS JUNIOR, Ondemar F. Considerações iniciais sobre o terceiro ano de pesquisas no Estado do Rio de Janeiro. Programa Nacional de Pesquisas Arqueológicas 3-resultados preliminares do terceiro ano (1967-1968). Publicações Avulsas nº 13. Belém: Museu Paraense Emílio Goeldi, 1969.

FREIRE, José Ribamar Bessa e MALHEIROS, Márcia Fernanda. Aldeamentos indígenas do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Universidade Estadual do Rio de Janeiro, 1977.

HEREDIA, Raimundo Osvaldo; LIMA, Tania Andrade; e SILVA, Regina Coeli Pinheiro da. Pesquisas arqueológicas no norte fluminense: o sítio de Jurubatiba. Arquivos do Museu de História Natural vol. VI-VII. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 1981-1982.

LIMA, Tania Andrade e SILVA, Regina Coeli Pinheiro da. Zoo-arqueologia: alguns resultados para a pré-história da Ilha de Santana. Revista de Arqueologia 2 (2). Belém: Museu Paraense Emílio Goeldi, jul/dez de 1984.

MACHADO, Lilia Cheuiche; SENE, Glaucia Malerba; e RIBEIRO SILVA, Laura P. Estudo preliminar dos ritos funerários do sítio do Caju, RJ. Revista de Arqueologia v. 8, 1. São Paulo: Sociedade de Arqueologia Brasileira, 1994.

NIMUENDAJU, Curt. Mapa etno-histórico de Curt Nimuendaju. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 1987.

SOFFIATI, Arthur. A história ambiental de um campo nativo de planície. Anais do III Encontro da ANPPAS. Brasília: Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ambiente e Sociedade, 2006.

VELOSO, Henrique Pimenta; RANGEL FILHO, Antonio Lourenço Rosa e LIMA, Jorge Carlos Alves. Classificação da vegetação brasileira, adaptada a um sistema universal. Rio de Janeiro: Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 1991.

Por Arthur Soffiati

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