terça-feira, 28 de março de 2017

De Barra do Açu a Barra do Furado - (Artigo Final)

A costa de Campos dos Goytacazes
Por Arthur Soffiati


Rasgada em 1688, por iniciativa do capitão José de Barcelos Machado, a vala do Furado não tinha sua barra aberta permanentemente. Assim que as águas de cheia escoavam para o mar, a barra se fechava novamente por força da corrente marinha principal, de oeste para leste. 

Os canais naturais eram tomados por vegetação aquática. Era preciso mantê-los limpos. Os jesuítas se destacavam nessa tarefa pública, exercida por seus escravos. Havia então quatro domínios na baixada: o Morgado de Capivari, do capitão José de Barcelos Machado, os domínios dos Assecas, sob controle da família Correia de Sá e Benevides, as terras dos Jesuítas e as terras dos Beneditinos. 

Quando os jesuítas foram expulsos das colônias portuguesas, o trabalho de limpeza dos canais ficou abandonado. Em 1785, o capitão cartógrafo Manoel Martins do Couto Reis, não simpático aos jesuítas, reconhecia a importância da ordem religiosa na execução desse serviço público. Ele reclamava dos proprietários rurais quanto a seu individualismo e propunha que as câmaras municipais assumissem a tarefa de manutenção dos canais limpos e da barra da vala do Furado aberta em tempo de cheias.

Alguns proprietários rurais foram designados pelos governos do Vice-Reino, da Capitania e da Província para realizar trabalhos de limpeza e conservação de canais. Mas nenhum deles se igualou aos Jesuítas. Pode-se dizer, então, que os canais naturais ficaram abandonados e tomados de vegetação aquática, sobretudo o aguapé, como já denunciava Couto Reis.

Na primeira metade do século XIX, a febre de abrir canais de navegação dominou o mundo, o Brasil e a região norte fluminense. Ventos da revolução industrial inglesa, que tinha os canais como escoadouros adequados para o combustível (sobretudo carvão), a matéria prima e a produção. Em 1840, José Silvestre Rebello concebeu a ligação de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, a Belém, no Pará, por meio de vários canais de navegação que, no seu conjunto, receberiam o nome de Canal Imperial. Ele previa a abertura de um canal da baía de Guanabara ao Rio Paraíba do Sul. Essa ideia se concretizou parcialmente com o canal Campos-Macaé. Ele previa também a ligação do Paraíba do Sul ao Guaxindiba por outro canal, cortando a lagoa do Campelo.

A região norte fluminense, que ainda não tinha esse nome, contou com quatro canais: Campos-Macaé, Onça, Nogueira e Cacimbas. Todos foram abandonados com o advento da ferrovia, na segunda metade do século XIX. A linha férrea São Sebastião seguiu a estrada de terra entre Farol e Campos, o caminho da colonização da região, acompanhando o córrego do Cula, hoje reduzidos a pequenos fragmentos. No trecho urbano de Campos, ele foi tombado pelo governo do Estado do Rio de Janeiro, mas está abandonado e continua a ser destruído.

A revolução industrial chegou ao norte fluminense de maneira tímida, com a substituição progressiva dos pequenos engenhos de açúcar pelos grandes engenhos centrais e usinas. O aumento da capacidade produtiva da indústria não foi acompanhado da produtividade agrícola. A baixada tinha muita terra fértil, mas ela estava embaixo de lagoas.

Começa, então, a terceira fase da história regional relacionada ao ambiente. A drenagem das lagoas tornou-se tarefa imperiosa. Foram criadas comissões federais, estaduais e particulares para o serviço. A primeira tentativa de abrir um canal entre a lagoa Feia e o mar coube ao engenheiro Marcelino Ramos da Silva, entre 1898 e 1900. Seu início foi o ponto mais ao sul da lagoa com final no oceano. Tratava-se do canal de Jagoroaba ou Ubatuba. O engenheiro campista Francisco Saturnino Rodrigues de Brito vaticinou que ele seria um fracasso por ser aberto em terreno arenoso de restinga. Dito e feito. As margens desabaram e assorearam o canal. 

O escoamento das águas de cheia continuou a ser feito pelos canais naturais e pela vala do Furado, que ficava aberta enquanto a força da água doce exercesse pressão sobre o cordão arenoso. Assim que houvesse enfraquecimento dela, a corrente marinha predominante fechava o Furado e a Barra Velha, na atual lagoa do Lagamar. O rio Iguaçu continuava aberto, correndo atrás do Farol.

Em 1933, foi criada a Comissão de Saneamento da Baixada Fluminense pelo governo federal. Com a tomada do poder por Getúlio Vargas pela revolução de 1930, instaurou-se no Brasil um Estado progressivamente intervencionista. A Comissão é criada nesse contexto. Em 1934, o engenheiro Hildebrando de Araújo Góes conclui o importante e famoso relatório “Saneamento da Baixada Fluminense”. Nele, o autor levanta as quatro baixadas do Estado do Rio de Janeiro, examina todos os estudos que já tinham feito sobre elas (parte preciosa por tratar-se de material em grande parte perdido), diagnostica os problemas das baixadas para a agropecuária e propõe intervenções para adaptá-las a atividades rurais. Para a baixada do norte fluminense, ele propôs a aplicação do plano de saneamento formulado pelo engenheiro campista Francisco Saturnino Rodrigues de Brito na década de 1920.
Fig. 1- Baixadas fluminenses segundo Hildebrando de Araujo Góes:
1- Sepetiba, 2- Guanabara, 3- Araruama, 4- Goitacazes
Os trabalhos da Comissão se iniciaram em 1935. Em 1940, eles tinham prosperado de tal forma que o órgão federal que atuava apenas no Estado do Rio de Janeiro ganhou âmbito nacional e passou a se chamar Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS). 

Nesse ano, o engenheiro Camilo de Menezes redigiu minucioso relatório sobre uma geografia em transformação pelo DNOS no norte fluminense e que hoje não mais existe. Na década de 1940, a estrutura de canais, diques e comportas na margem direita do rio Paraíba do Sul estava praticamente concluída e consolidada. Um relatório do engenheiro Prospero Vitalo, referente a 1948, e um mapa do DNOS de 1950 mostram bem o andamento dos serviços.

Em memória apresentada no I Congresso Panamericano de Engenharia, o DNOS escrevia: “Para defesa das terras ao sul do rio Paraíba, cuja descarga durante as cheias atinge a 5.000 metros cúbicos por segundo, inundando frequentemente a baixada campista, onde se encontram instaladas importantes usinas de açúcar e vastas plantações de cana, foram construídos dezoito quilômetros de diques de alvenaria de pedra argamassada, desde Itereré até a cidade de Campos. 

A jusante desta cidade, defendendo ainda a planície da margem direita do rio Paraíba, foi construído um dique de terra, na extensão de vinte e seis quilômetros. Parte deste dique aproveita o aterro de uma ferrovia, o que permitiu a diminuição da sua seção transversal (...) Defendendo a planície, vem sendo feita a sua drenagem com a abertura de vários canais que conduziram as águas para a lagoa Feia, vasto reservatório para o qual convergem vários rios da baixada campista. 

Já foram construídos os canais de Itereré, Cacumanga, São Bento, Saquarema, Cambaíba, Colomins, Tocos, Macacuá e outros, com extensão total de 221 quilômetros (...) Atualmente estão sendo dragados outros canais: Coqueiros, Nicolau, Jesus, Quitinguta (...) O escoamento da lagoa Feia, cuja área é de 370 quilômetros quadrados, se faz através do canal das Flechas, também aberto pelo Departamento, com 13 quilômetros de comprimento e 80 metros de largura. É o único canal construído na região campista que deságua diretamente no mar (...) Durante a estiagem, os canais que drenam a planície, funcionam como canais de irrigação, pois nascem no rio Paraíba, onde há tomadas d’água com comportas manobráveis, que permitem a captação do volume d’água desejado.”   
Obras executadas pelo DNOS 
na Baixada dos Goytacazes até fim de 1950

O órgão federal abriu o tão desejado canal das Flechas entre a lagoa Feia e o mar para auxiliar o Paraíba do Sul no escoamento de águas de cheia e de drenagem. Sua foz foi rasgada sobre a antiga barra da Vala do Furado, aberta em 1688. A localidade conservou o nome. No princípio dos anos de 1980, a foz foi prolongada com dois espigões de pedra para manter a barra permanentemente aberta. A obra foi um desastre, pois desalinhou a costa. Areia proveniente do oeste ficou retida no espigão do lado de Quissamã, enquanto que a redução do aporte de sedimentos do lado esquerdo permitiu que o mar erodisse a costa.
Canal das Flechas, ligando a lagoa Feia ao mar. Foto do DNOS
Posteriormente, na área de baixada na retaguarda do Farol, a Petrobras construiu um heliporto. Planejou, depois, um grande aeroporto para a área, mas o projeto não foi adiante. 

Hoje a costa de Campos dos Goytacazes se estende da barra da lagoa do Açu à barra do canal das Flechas, ambas profundamente transformadas ou construídas pela mão humana.
  

Obras consultadas
BRITO, Francisco Saturnino Rodrigues de. “Defesa contra inundações: melhoramentos do Rio Paraíba e da Lagoa Feia”. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1944.

COUTO REIS, Manoel Martins do. “Descrição geográfica, política e cronográfica do Distrito dos Campos dos Goitacases, que por ordem do Ilmo. e Exmo. senhor Luiz de Vasconcellos e Souza do Conselho de S. Majestade, Vice-Rei e Capitão General de Mar e Terra do Estado do Brasil se escreveu para servir de explicação ao mapa topográfico do mesmo terreno, que debaixo da dita ordem se levantou.” Rio de Janeiro: 1785, ms. original. 

DEPARTAMENTO NACIONAL DE OBRAS E SANEAMENTO. “Exaguamento e drenagem para recuperação de terras e defesa contra inundações em regiões e cidades brasileiras”. Rio de Janeiro: DNOS, 1949.
GÓES, Hildebrando de Araujo. “Saneamento da Baixada Fluminense”. Rio de Janeiro: s/e, 1934.

LAMEGO, Alberto Ribeiro. Geologia das quadrículas de Campos, São Tomé, Lagoa Feia e Xexé. “Boletim nº 154 da Divisão de Geologia e Mineralogia”. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 1955.

MENEZES, Camilo de. “Descrição hidrográfica da Baixada dos Goitacases”. Campos: Ministério da Viação e Obras Públicas/Diretoria de Saneamento da Baixada Fluminense/Residência da Baixada dos Goitacases, abril de 1940 (datil).

VITALO, Prospero. “Relatório de 1948 apresentado pelo chefe do Distrito de Goitacazes”. Campos: MVOP/DNOS, 1949.




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